quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ainda Que Irreal

A noite havia caído e deixado, simplesmente, o padecer solitário das estrelas. O vento que soprava suave o que parecia entonar a primeira sílaba do seu nome. Lembrava, sutilmente, os acordes sucedidos de seu sorriso. E foi quando, no modelo de uma exaustão, eu cai em um sono profundo – apesar das leituras sinistras e das taças de café.
E fui levado, então, a um mundo paralelo. Inicialmente, não por um sonho, mas uma recordação antiga. Havia o cheiro de seu cabelo; havia os traços de seu rosto; havia a mágica de seus olhos. Mas havia, em meio a toda aquela natureza – e justamente por um sonho – a realização de um desejo. Porque, dentre as memórias e os anelos, encontrou-se o poeta à sua musa; um desejo ao seu destino; um lábio, a outro.
Mas o dia raiou e ele, como o flash de uma fotografia, despertou o inconsciente deste pobre enamorado. Porque, assim que os olhos se abriram para a vigília; para a realidade, o maior sonho se tornou cego. E a inspiração que cada gesto seu; o florescer de todo um campo, a cada fração de um sorriso. E o apagar de toda a opressão e marasmo do mundo, naquele instante em que suas mãos tatuadas haviam tocado a superfície do meu rosto e, num impulso quase insensato; um tanto quanto imprudente, você selou cada uma das minhas palavras – e todos os meus pensamentos – com o nascer de um beijo.
E aquelas mãos; aquela “superação”, escrita em inglês; aquele toque tão sincero; tão simbólico; tão sinistro. E aquele olhar, a poucos dedos do meu, apropriando-se das certezas de minha íris e modificando todos os meus conceitos de realidade. Para, então, não haver mais razão; nem um pingo de coerência, em todo o resto do mundo.
Apenas ela.
Mas, infelizmente, somente em sonho.

E, assim, naquele início de manhã, peguei-me aças débil! Queria, de qualquer forma, tornar aquele sonho para reviver o seu olhar; reencontrar seu sorriso e perder-me em seus lábios. Ainda que todo o mundo fosse irreal. Porque, em suma, não me importava mais, se a realidade fosse distorcida; se eu estivesse vivendo de um desejo ilusório.
Pois, afinal de contas – no término do dia – eu poderia tê-la, minha, novamente; e sentir-me em teu abraço; teu, novamente. Por um fragmento de instante que eu poderia fotografar, em minha memória e imortalizar, como se fosse um retrato perfeito.

De um sonho distante.
E fascinante.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A NOITE EM QUE (NÃO) PERDI O MEU AVÔ

“Todos vamos morrer, e isso faz, de nós, pessoas afortunadas”, eu li, certa vez, em um fantástico livro. O autor, na presente obra, declara que a morte é um presente dado somente àqueles que puderam viver e que isso, por si só, deve ser comemorado. Ressalta que nosso conjunto genético poderia incluir cientistas maiores que Newton, ou poetas maiores que Shakespeare, mas que somos nós – com todos os nossos defeitos; nossas limitações – que estivemos aqui.

Desta sorte, portanto, eu creio que a ligação – a mesma que carregou o recado do falecimento do meu avô, HERMÍNIO SANDI, 94 anos – foi um intervalo de instante que me possibilitou perceber o quão fantástica é a vida. Tanto que, no carro, à caminho do hospital, ouvi meu pai falar sobre a maravilhosa pessoa que era seu pai; meu nôno. E, no mesmo segundo, eu lhe disse que estas lembranças que seriam lembradas desta pessoa.

E é este, justamente, o meu pensamento! Critiquem meu posicionamento; digam que eu sou um cético. Mas que vejo a morte como o último capítulo do mais maravilho livro: a vida. E, se houve um enredo, a criação de diversos personagens e uma conclusão, é porque esta história ficará marcada, em muitas memórias e – certamente! – em muitas mais pessoas.
Porque uma pessoa não se vai, quando seu corpo já não reage. Um corpo não perde a sua vitalidade; sua vida, quando o coração para de bater e o cérebro não trabalha. Pelo contrário! Um homem; assim como um livro, se torna imortal, por todos aqueles que puderam se banhar de suas palavras; de seus dias.
Para tanto, meu avô não morreu, esta noite. Ele vive em 11 filhos, mais alguns netos e uns contatos bisnetos. Ele reage, na sua história e nas pessoas que cativou, por este longínquo percurso. E, enquanto houver um ensinamento repassado; enquanto um descendente se honrar de seus paços; enquanto se mantiver, ao menos, a memória, ainda haverá, imortalizado, a história de meu avô.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Pelos Segundos Próximos a Ti

Aquele início de tarde - e aquele sutil atraso de alguns minutos - pareciam não remeter a nada além de alguns segundos de alimentos narcísicos. Eu aguardava, dentre cada uma das minhas precisas escolhas, a sua chegada.

Mas não aguardava ao seu sorriso. Não consegui imaginar que, entre cada uma das suas palavras; a cada picada de mosquito em suas pernas, eu conseguiria me deixar envolver pelo instante. E era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido - como se, para além daquela câmera, houvesse simplesmente um par de olhos escuros. Não acreditei ainda ser capaz encontrar uma pessoa que me deixasse sem chão; que me fizesse errar, por alguns passos. Não imaginei existir um ser capaz de "clicar" cada uma das fissuras que existia em mim.

Mas havia.

E, por haver, eu não me contive. Eu não fui capaz de manter meus instintos de escrivão distantes o suficiente para não transformar cada uma de suas palavras em uma poesia, aos meus ouvidos.
Eu brinquei, porque não havia forma mais propícia para esconder meus receios, meus medos; minha vergonha.
Eu consenti, porque não encontrei obstáculo algum, dentre seu trabalho e meu corpo que pudesse romper com aquele desejo.

E, a cada fotografia; cada espaço; cada pose, eu aguardava você me chamar, para mirar o resultado, em um instante em que eu pudesse sentir o cheiro do seu cabelo e tocar, sutilmente, a ponta dos seus braços tatuados.

Porque não me importo mais! Que o mundo se exploda! Eu quero ser feliz!
Eu quero gritar pela minha liberdade!

Porque, da mesma sorte em que você se aprofundou à minha imago; sobre o meu corpo, eu também já não posso mais negar, dentre todos os pingos d'água e cada pedra escorregadia, que não havia complemento mais belo, em toda aquela natureza, que a profundidade de seus olhos; o brilho do seu sorriso e o canto de cada uma das suas palavras.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Admito!, sem medo, que sou vítima de minhas limitações!

Pois bem.
Depois de algum tempo - épocas de um tempo qualquer -, não restou alternativa plausível, senão acolher minhas fronteiras. Senão declarar, aos quatro cantos de minha imago - e para o desespero de meu ego - que eu sou nada além de uma mente que voa distante, mas não abre os olhos para sair do lugar.

Eu sou hesitante. Temo por cada um dos passos seguintes que darei. E, desta sorte, não me permito, muitas vezes - diversas noites - admirar o nascer do sol. E, em contraponto, crio fissuras que me impossibilitam concretizar qualquer sonho; estabeleço barreiras que me impedem de saborear da delícia de um beijo.

Ao invés de abrir meu peito contra a lua minguante que assiste, imponente e absoluta, ao meu trajeto, eu estabeleço mecanismos de defesa. Aproprio-me de alguma piada de humor questionável; trocadilhos infames. Eu quebro, destarte, com qualquer possibilidade de me entregar.

Todavia, ainda existe um coração que pulsa. Ainda há uma mente que sonha. Uma poesia que se declama.
Para tanto, há esperança. Há um resquício de sorriso - digo, de luz - no término desta madrugada abafada e petrificante. Porque, embora haja um travessão, sim!, entre o desejo e a coragem, há também um abraço - ou uma ponte - que unifica estes dois estreitos.

E, deste sonho de término de noite - de abandono de festa -, ainda vivem marcas do que pode, muito bem, celebrar um sorriso - talvez um amanhecer. Porque, humildemente, eu sou vítima de minhas limitações. E nunca soube, precisamente, vasculhar os porões de minha mente para encontrar as mais adequadas palavras para lhe desejar uma boa noite.

Quem dirá, então, te convidar para tomar um café; conversar no parque; sair à deriva.
Ou, talvez, até a noite acabar.

Abismado Com Seu Ritmo

Eu adentrei àquele espaço. Despretensioso; hesitante. Meus pensamentos ainda sofriam de alguma macabra derivação do último capítulo lido. Talvez, porque eu não esperava que pudesse ser acometido por um estranhamento, de qualquer natureza.
Não. Certamente, não.
Mas fui. Ah, e como o foi! Como o despertar de um transe sinistro; o obter de um conhecimento que me era, até o presente momento, um fragmento de minha imago que não imaginei poder existir. E, mesmo que possa parecer utópico, eu não creio que esteja superestimando o estado pelo qual fui imergido, quando me deparei com aquele vestido verde, em um ritmado movimento cativante e sensual.
Mas me frustrei, assim que direcionei os meus pensamentos para o meu particular mundo das palavras, porque não encontrei verbalizações hábeis a descrever aquele sorriso; aquele suave, gentil e tentador corpo. Talvez, o ser humano seja, realmente, limitado. Ou estejamos na superfície de uma novalingua, como previa Ornwell, em meados dos anos 40. Porque pode já não existir palavras para transmutar os traços daquele rosto.
Mesmo assim, aventuro-me, agora, por entre as palavras. Ainda que seja arriscado. Ainda pareça suicida buscar, em uma ciência de padrões limitados, os quesitos para desmembrar as desventuras pelas quais passeavam aqueles profundos olhos. Porque até mesmo o mundo se tornou lindo, visto pelo reflexo daquela íris. Formou-se, neste miserável - que também é um escritor - uma nova forma de compreender os estímulos externos.
Portanto, restou-me, unicamente, - oh, que melancolia, a minha - saudar-te com minhas palmas, enquanto você ofegava, sutilmente, aos últimos passos daquela dança que jogava, em um mar de fogo, as brasas de seus cabelos. Tão belos; tão quentes!
E, para tanto, uma despedia.
Como se este fosse, unicamente, o fragmento limitado de um sonho. Um lapso da mais precisa e belo loucura, em meio à vasta e pacata realidade.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Decadência

Porque qualquer semelhança é mera coincidência.
Mas era alta madrugada, se bem tenho ciência. A noite estava escura, mas estava abafado. Ela não era mais pura; nem estava ao meu lado. Eu precisava dar um fim a toda aquela dor. Deixar de lado, todas as lembranças que poderiam lembrar um amor.
Por isso, eu sai de casa, primeiramente sem destino. Mas o cheiro pútrido que corria dela insistia em me inundar. Eu fui tomado, com se fosse o chorume, em um lago cristalino. E não resisti, quando a fúria me tomou, sem pesar.
Eu tinha, às mãos, as marcas de uma paixão. Tinha, aos olhos, uma perversa possessão. Tinha, à mente, um desejo sem razão.
Mas tinha, ao lembrar-me de ti, um menosprezo consciente. Tinha, na evocação de nossas memórias, meros lapsos decadentes. E, desda amargura - a qual já não tinha cura - eu fui ao teu encontro. Suicida, insensato, imprudente.

Eu estava frustrado. Meus lábios estavam dormentes. O gosto amargo de ferro, na garganta, se mantinha aprisionado. E era como se nosso amor nem mais fosse ciente. E, por isso, quando te vi. Rodeado de tantos outros, exatamente iguais a ti. Não sei bem o que senti. Se é - é claro - que algo que eu vivi.
Sei, somente, que apontei minha angustia para a sua expressão. Era sincera - todavia - toda aquela emoção. Eram lágrimas, mas não havia nada de sutil. Eram - sim! - passos, sobre um território hostil.

Então, quando aquele projétil atravessou a sala - o salão. Quanto atingiu sua fala - e seu rosto tocou o chão. Quase me pareceu melancólico; um poema bucólico. Talvez, pela tamanha precisão.
E quase eu nem percebi, quando os outros entraram naquele desgosto; aquele frenesi. Nem repararam naquela, que os cabelos arrumou; as unhas pintou, o salto alto vestiu, e a máscara da futilidade serviu.
Nem repararam, pois não conseguiram desviar os olhos do espelho. Nem notaram, aquelas leves pigmentações de vermelho.

Notaram, somente, com tamanha aflição e tristeza - comoção e destreza - que a bala que enegrecera sua visão, fora a mesma que transformou em uma poça etílica, com cacos de vidros, daquele "litrão".

E, assim, acabou a festança temática. Apagou-se aquela mentalidade decadente e lunática. Não havia mais baladas, nem pegação. Não havia a cartada; nem um às à mão.
Havia, somente, um corpo vazio, estirado no chão.

PS: isso é mera ficção - de veracidade, somente a ausência. Por isso, ressalto, que qualquer semelhança, é mera coincidência.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Parte das Minhas Noites - E de Meus Sonhos

Por estes cachos que quase te cobrem a fase, eu perco os sentidos; perco a noção do tempo e espaço; eu perco o juízo. E deliro, todas as vezes que você passa, com seu estilo extravagante; extrapolado; extraordinário.

Por este sorriso só seu, que faz tremer o seu nariz, eu fico em transe; como se o mundo parasse; como se o dia renascesse; como se o resto sumisse. E me encanto, todos os dias que sou presenteado pela troca de nossos olhares, tão singelo; tão sincero; tão sensato.

Por estas palavras amigas que te permeiam, eu disfarço cada um dos meus desejos; cada um de meus sonhos; cada um dos meus anelos. E fragmento, por cada traço delineado de seu rosto e, desta sorte, assumo uma realidade quase irreal; meramente fantasiosa; tão fictícia.

Mas, por cada um destes dias, eu assumo que, no dia seguinte, eu poderei reassumir estes paços, ainda que não haja o perfume deixado pela sua presença; nem os seus cabelos jogados ao léu; nem o seu sorriso a iluminar a quase madrugada. E, por isso, eu adormeço tranquilo; sereno; em paz, sabendo que, em meus sonhos, alguns ingredientes da realidade se farão presentes...

... graças a você.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O que Eu Mais Quero

Eu quero olhar nos teus olhos; quero perder a noção.
Quero dizer que te adoro; sem ligar para a razão.
Eu quero te fazer minha; e te ver sempre sorrir.
E eu quero te deixar sozinha, só para, depois, te possuir.
Eu quero te levar pra minha casa; inventar um lanche qualquer.
Eu quero te puxar pelo braço, sem dizer uma palavra, sequer.
Quero fechar os teus olhos, e te arrastar até o meu quarto.
Quero te fazer um carinho, até o pulso sentir-se farto.
Quero sentir o teu cheiro; quer colar no teu corpo.
Eu quero ouvir teus gemidos; te fazer o meu porto.
Eu quero te fazer perder o juízo; e sentir seus arranhões.
Quero delirar pelo orgasmo; nossos corpos em contrações.

E quero estar ao seu lado, quando o sol despertar;
E te ver despertando, sorrir para ti e te beijar.

Do Outro Lado Da Mesa

É do seu sorriso inquietante
Que, na noite, se exalta;
Do teu olha penetrante,
Que eu mais sinto falta.

E, agora, tão distante,
Miro suas expressões,
Em pensamentos errantes
De tantas tentações.

Pois me comovi, sinceramente,
Nesta destreza - à meu espanto
E me perdi, humildemente,
Em sua beleza - todo seu encanto.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Keep the blues on!

Ontem à noite, eu fotografei uma bela mulher. Só para reviver aquele momento, posteriormente. Arrependi-me e exclui tal registro, porque temia arruinar a magia daquele lapso de instante, de quando ela cruzou por mim e trocamos olhares.

Ontem à noite, eu deixei a chuva me inundar. Nadei sobre as poças e chutei lama, espalhando gotas de chuva misturadas a terra para todos os lados e para toda minha roupa. Depois, arrependi-me, porque o curso daquela água se mantinha ali, como se nada tivesse acontecido.

Ontem à noite, eu colaborei com a pipoca de uma desconhecida. Só para observar sua expressão retraída e hesitante, ao aceitar minha prestação. Depois, arrependi-me, simplesmente por não ter sido um comerciante completo e solicitado, em troca, o seu nome.

Ontem à noite, eu investi um bom tempo para filosofar, sem pretensões, com um bom amigo. Disse-lhe sobre todos meus medos e meus anseios. Arrependi-me, depois, por não ter sido humilde o suficiente para ouvir os seus.

Ontem à noite, eu me entreguei a um bom e velho Blues que tocava, em alguns palcos laterais. Aceitei cada acorde da maioria das musicas e, disso, fiz uma poesia silenciosa, em meus pensamentos. Arrependi-me, posteriormente, por não ter aberto os meus olhos e observado a paixão pela qual os músicos expunham suas artes.

Hoje à noite, eu irei ao mesmo local. Verei, talvez, a mesma bela mulher; banhar-me-ei na mesma chuva. Colaborarei mais uma pipoca a um desconhecido. Encontrarei o mesmo amigo. Ouvirei o mesmo bom e velho blues.
E, talvez, esta noite, eu cometa os mesmos erros. E, amanhã, talvez me arrependa, mais uma vez.
E viverei este ciclo de paixões de arrependimentos.
Porque não tenho interesse algum em acertar, todos os dias. Porque, com paixões, eu sou como um descascador de batatas: não corto fininho; eu arranco pedaços.

Contando que o blues continue a tocar, todos os dias, para que eu possa errar – e amar – um dia a mais.

domingo, 17 de novembro de 2013

O Deserto

Existem tantos gostos
Para o mesmo disfarce
E tantos mil rostos
E outras mil faces.

Já não há mais razão
Quando se olha, de perto,
Que, ao invés da multidão,
Há – somente – um deserto.

O belo luar ilumina
E parece que encanta
O desejo fascina
Mas também não adianta.

E, aos poucos,
Sem – sequer – percebermos
Sobram – somente – os loucos
Que já não reconhecemos.

E a madrugada vai embora
Sem deixar uma despedida
E fingimos que é hora
De seguirmos com a vida.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Somente Hoje... Somente Amanhã...

Era início da noite. O som metálico extraído da chave, na fechadura, simbolizava o trancafiar de dois corpos, do resto do mundo. E, a partir daquele derradeiro instante; aquele divisor de águas, não havia mais nada que pudesse conter o espírito humano que pulsava, dentro daqueles peitos.

O anseio por um beijo. E nada mais.

Na tela ofuscada da televisão, talvez, um metragem exercia seu papel de entretenimento. Inglória função, visto que nenhum daqueles dois corpos tinham ciência de algo, naquele espaço. Somente o toque do outro. E, por esta mesma sorte, não havia nenhum estímulo externo que pudesse romper com o desejo que emanava daqueles lábios colados.

Um abraço quente. E nada mais.

E assim o parecia. Dois corpos fundidos, como se - tão enlouquecidos pelo desejo - já não pudessem mais cumprir com as leis da física e da matéria. Um olho no olho, como se aquele carinho viesse de há muito. Um toque, na pele, com a ponta dos dedos, como se aquele afago fosse durar a eternidade. Um suspiro ofegante. Um beijo no pescoço.

Uma peça de roupa a menos. E nada mais.

Então, a paixão.
Não a necessidade de possuir; de tomar. Não o compromisso que corre as ruas, diariamente. Mas o apego pelo outro; daqueles rostos sorridentes. De cada um, dos dois - e dos dois, como sendo um. E, sim!, a mera força de ficarem juntos; de cumprir com suas vontades e, principalmente, de perceberem o outro feliz. E, dessa felicidade alheia, construir a própria ventura.

Por um dia a mais. E nada a mais...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sem Palavras

Foi tão intenso. Tão denso.
Mesmo que tenha sido inconsequente
Foi tão cativante e envolvente.

Foi imprudente. Foi inesperado
Mas, mesmo não estando ciente;
Não me importa - estava ao seu lado.

Senti-me bem
Como nenhum outro dia
Com nenhum outro alguém
Nesta noite tão fria.

E você, com seu sorriso perfeito,
Deixou-me, assim, sem jeito.

E aquela despedida;
Aquele misto de alvoroço
A observar sua partida
Com aquele beijo, no pescoço.

Foi tão enlouquecedor
Que bem parecia
O surgir de um beija-flor
No recando da maresia.

E, nestes beijos; vontades tão loucas
Que me deixaram, assim, com água na boca!

domingo, 10 de novembro de 2013

A Noite D

Era alta madrugada. A noite se mostrava envolvente. Todavia, eu estava deslocado. Deslocado. Deslocado. Como um passageiro de avião que mira o chão, aos seus pés, sem imaginar que aquele ainda era o seu mundo.

Virei-me. Dei as costas para este mesmo mundo. Deixei que as vozes se distanciassem. Distantes. Distantes. Como se aquela noite deixasse de ser real. Como se eu fosse um mero expectador. Assistindo a tudo, do lado de fora. Daquele espaço que mesclava entre vozes e batidas. Brisas e pingos. Goles e tragadas.

Segurei - com unhas e dentes; pele o osso - uma memória contida. Daquela conversa despretensiosa. Despretensiosa. Despretensiosa. Um rosto delirante. Rascunhado, como se fosse belo demais para ser passado a limpo. E aquele par de longas pernas, em harmonia com a madrugada. Agarrei-me, assim que aquelas formas - e traços, e gestos - se fizeram material. Amarrei cada minuto daquela longa - e demorada - fila.

Depois de alguns segundos. Alguns fragmentos de instantes. Alguns ventos de madrugada metamorfoseando-se em dia. Dia. Dia. Eu me vi. Débil e vislumbrado. Em um sorriso sem antecedentes. Sem conter-me.

Talvez, até, estivesse sendo igualmente assistido.

Portanto, virei-me! Encarei o espaço com minhas tantas caras fissuradas e tantas bocas determinadas. Destemidas. Desteminas. Iria - enfim! - atrás daquele rosto retangular de Afrodite. Correria - até o fim do mundo; até o final da madrugada - buscando aqueles lábios contidos da Vênus de Milo. Aquele sorriso formoso de Helena de Tróia. Daqueles olhos delineados, como os da própria Cleópatra.

Ainda que eu não soubesse o seu nome, sequer.

Mas, quando cheguei. E por tantas vezes vaguei. De corredor em corredor. De caminhos destinados. Destino. Destino. Simplesmente, encontrei ninguém, senão meu rosto, suado e febril, de frente ao espelho sujo do banheiro.

E ela já havia partido.

E eu, vacilante. Errante, como um derrotando, tornando de batalha. Fechei meus olhos, esperando acabar aquele tempo. Jurando para que tudo fosse um sonho. E que tudo estivesse normal. E ela talvez, nem existisse.

Mas eu estava errado. E havia perdido. Aquele dia de. D. D.

sábado, 9 de novembro de 2013

Perdido, Naquele Encanto

E, aquela noite, se apossou de mim
Foi tão lindo que não hesitei em dizer que sim
Mas me via, ainda assim,
Como um estranho, olhando de fora.

E me perdi - era meu fim
Quando percebi aquele perfume de jasmim
E aquele sorriso de um anjo querubim
Estava congelado, naquele olhar de aurora.

Naqueles cachos, eu me perdi
Que nem reparei, o quão bobo sorri
E, naqueles olhos, eu me encantei
Assim, tão doce, que eu nem reparei.

Quem sabe, então
– Não que necessite de razão –
Mas amanhã, talvez,
Eu torne a me perder
– Mesmo que sem querer –
Naquela insensatez.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Madrugada Abafada

Era noite adentro – meu rosto abatido
Meus olhos fervendo – meu desejo perdido.

Foi quando, assim – sem pretensão,
E diante de mim – eu tive uma visão.

Era tão doce e bela;
Com um rosto de porcelana
Com picantes tons de aquarela
De um afável final de semana.

E era tão linda – era não fascinante
Que seu sorriso ainda – se fazia distante.

Mas ela não me olhou
Eu busquei, insistentemente
E, daqueles olhos, o que restou

Foi a lembrança de um poente.

domingo, 3 de novembro de 2013

Não me perturbe
Não me atrapalhe
E também não jogue
Pedras pelo meu caminho.

Porque eu só quero estar sozinho.

Portanto, não perceba
Se eu estiver indisposto
Amargurado
E não aceitar seu carinho.

Porque eu quero, somente, ficar sozinho.

Não me importa também
Se as margens forem fundas
Se o caminho for árduo
E se a rosa tiver espinho.

Justamente, porque só quero estar sozinho.

E não me importa, então
Os que passaram
Os que passarão
E os passarinhos.


Porque, por favor, eu só quero ficar sozinho.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cada Pedaço de Mim

Eu sou assim.
Um pouco complicado - admito.
Mais perturbado e instável do que a maioria, daqueles que me rodeiam. E isso, de maneira alguma, eu nego. Podem me titular por insano; inadequado; imprudente; suicida.
Chamem o diabo pelo nome que vocês bem entenderem!

Eu sou assim.
Meio desastrado - meio irreal.
Mas, (in)felizmente, eu não me contento com promessas. Eu não me satisfaço com desejos que não assumem o plano real.
Eu quero - e exijo - cada detalhe de expressividade e desejo que o mundo pode - e deve - me oferecer. Eu quero, da mesma sorte, sorver de cada pedacinho deste mar aconchegante e deste corrosivo deserto.

Eu sou assim.
Já joguei fora mapas que traçavam o caminho das pedras. Já guardei, a sete chaves, uma pena manchada de tinta. Eu já adormeci ao lado de uma realidade, jurando ser somente um sonho e, por fim, já amanheci, tendo perdido meu grande amor.

Eu sou tudo isso e, como tudo, sou - especialmente - o nada.
Mas não me importo. Porque não me sacio com sonhos quebrados; com esquinas esquecidas; com desejos mentirosos.

Portanto, se quiser me acompanhar, você é bem-vindo.
Mas não se iluda. A qualquer momento, eu posso abrir mão desse caminho. Desistir de você. Esquecer de mim.

Afinal, o mundo também é finito demais para todos os meus sonhos.

domingo, 20 de outubro de 2013

Tão Doce - Tão Quente

Seria como desistir de pulsar
Seria como não mais desejar
Seria olhar para ti
E ignorar tudo que já senti.

Seria, desta via
Ou, talvez, nada seria.

Se não anelasse nossos corpos suados
Tão fortes – tão quentes
Se não sonhasse com seus cabelos dourados
Estes recortes – tão cientes.

Seria, desta razão
Ou, talvez, louca excitação.

Por que seria, somente
– Neste olhar transparente –
Um desejo; um querer
Que não se deve esconder.

sábado, 19 de outubro de 2013

O Significado Desta Imagem


Julgue-me pelo que você bem desejar
Titule meus méritos por desgraças
Jogue os fragmentos dos meus sonhos ao mar
E vista meus meus gritos com incontáveis mordaças.

Suas vontades; viva-as - as minhas; reprima
Repulse cada uma de minhas manias
Ironize tantos meus lapsos quanto minhas rimas
Deteste meus livros e minhas poesias.

Destarte, sorva de cada gota deste rancor
Dê gargalhadas, como se não houvesse dor
Que, por fim, verás que não restou mais nada de amor.

sábado, 12 de outubro de 2013

Ela Não Sabe e Nem eu sei

Há muito tempo a gente namora,
Mas nenhum dos dois ainda sabe
E não tem dia; não tem hora
Mas, talvez, este namoro acabe.

E, quando chegar esse derradeiro dia;
Quando a maré agitada também se tornar fria
Teremos, de praxe, uma belíssima história
Mas, infelizmente, perdida em nenhuma memória.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Encontro Entre Dois Desolados Senhores

Foi então, lá por umas bandas do paraíso, em um bar pouco movimentado de beira de nuvem, que se encontraram, casualmente, dois grandes - e velhos - amigos.
- Freud! - exclamou um, com longos cabelos e barba.
- Jesus! - respondeu o senhor de cabelos grisalhos que fumava um charuto.

Mas, logo, aquele breve momento de excitação deu lugar à melancolia, em sua mais sincera face. Um pediu uma dose dupla de Tequila, para afastar as marteladas que sentia, em seus membros e sua mente. O outro optou por uma Ice, para que pudesse elaborar a angústia a ponto que ela desejasse ser mudada.

- Tem visto como o pessoal da Terra tem lidado com seus ensinamentos? - um deles se arriscou a questionar, como se aquele questionamento lhe perturbasse.
- Sim, e você? - rebateu a pergunta o segundo, já sabendo qual seria a resposta.
- Também.

E a mágoa se fez tão onipotente que um achou que ela poderia ser seu pai e o outro, por sua vez, chamou-a de castradora originária.

Por fim, perceberam-se ébrios.
Pena, somente, que não existisse um porre suficientemente doloroso que pudesse ausentar aquela tristeza. E, mesmo que nenhum dos dois falasse abertamente, ao recordarem de suas filosofias, quando vivos, o pensamento que lhes cobria era como o de pais, ao perceberem as misérias que fizeram de seus filhos:

- Onde foi que eu errei?!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013


Que tudo se fod..., digo, se exploda!

O puritanismo ta um saco! Na boa! To falando sério.
Trago o assunto à superfície de minhas faculdades mentais – e redes sociais – porque li uma declaração, atualmente, do renomado – e sempre polêmico – diretor polaco-francês Roman Polanski e, intrigado, comecei a prestar atenção no tema. Ele disse o seguinte: “Hoje em dia, se você oferece flores para uma mulher, é considerado indecente”. Ouso acrescentar-lhe, caro Polanski, que, se as flores forem vermelhas, então, nem se fala. Você já tem garantido sua acusação de atentado violento ao pudor.
Ta demais!
Hoje em dia, você não pode mais xingar o juiz, numa pelada de futebol, num domingo a tarde. Muito menos a mãe dele. Não pode demonstrar afeto, de qualquer natureza, a uma pessoa. Muito menos em público. Não pode dizer que o filho do visinho é mal criado. Alias!, dependendo da casa, não pode nem dizer que o seu filho é mal criado.
Chega a ser patético.
Hoje em dia, se você elabora uma piada, em algum contexto social, você está sendo ofensivo. Se olha para uma mulher, na praia, está sendo pervertido. Se você tem preferências físicas, é preconceituoso. Se tem alguma (des)crença religiosa, é um herege! E, acima de tudo, se você tem uma opinião fundamentada e ergue bandeira pela sua causa, você é um porra de um “cabeça fechada”.
Muito bem disse Tim Minchim: “Se você abrir demais sua mente, seu cérebro cairá!”.
Mandem-no para a fogueira!
Hoje em dia, da mesma sorte, não se pode discutir política. Alias!, não se pode abrir qualquer discussão! Se você expor uma ideia; um ponto de vista, aqueles que não concordam com você lhe chamarão de tudo quanto é nome. Você será taxado dos mais diversos apelidos. Poucos serão aqueles que, civilizadamente, chegarão dizendo: “discordo de sua tese” e, em seguida, fundamentarão sua opinião contrária.
Não! Ou você tem o mesmo pensamento que o deles, ou que morra a sua mãe!
Hoje em dia, o velho não pode mais ser chamado de velho. É idoso; é terceira idade; é melhor idade. O gay não pode mais ser chamado de gay. É homossexual; é homoafetivo. Também o preto não pode mais ser chamado de preto. É negro; é afro-descendente. Mas, no fundo, esta troca de nomenclaturas tem o exato mesmo objetivo: criar um preconceito que, até então, não existia. E ouso acreditar piamente que não existe nada pejorativo, senão o que a própria sociedade acaba impondo, tentando creditar um discurso politicamente correto.
Ou seja, não considero errado, e nem ofensivo, chamar um velho de velho, por exemplo. Não estou desmerecendo e nem sendo desrespeitoso com ele, somente pela forma que me dirijo ao mesmo. Eu não deixo de admirá-lo pelas suas conquistas e respeitar suas limitações. Até porque essas nomenclaturas apenas representam diferenças.
E não há nada de errado me ser diferente!
Não é pecado acreditar – ou desacreditar – em outras religiões. Não é errado demonstrar interesses particulares, mesmo que eles não sejam do costume social. Não é preconceito se dirigir a uma pessoa por uma característica do mesmo.
E não vou nem colocar em mesa o assunto “humor”. Há muito que o Brasil tem discutido este tema e, cada vez que ouço um “brincadeira tem hora”, ou “não se brinca com isso”, sinto um aperto no peito. Sinto que a liberdade de expressão é, realmente, uma farsa.
Parece difícil de entender!

Destarte, como humilde estudante, penso que, unicamente, o ser humano deve buscar ser feliz, e não prejudicar o próximo. Buscar amadurecer suas ideias e ser uma pessoa que satisfaça seus desejos e, se possível, colabore para o crescimento social.
Discursos politicamente corretos? Nomenclaturas ideais?

Ah, que tudo isso se fod..., digo, se exploda!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Estúpido Sorriso

Estes olhos que se escondem
Por detrás das lentes
São delírios que compreendem
Os meus suspiros ausentes.

Estes olhos que se descobrem
E tanto me devoram
São imensas ondas que cobrem
Estes tantos versos que choram.

E este sorriso, tão belo,
Meu estúpido sorriso, tão sincero,
É um mistério de quimeras
Que acompanha primaveras.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pena de Morte ao Recém-Nascidos


Já há algum tempo que tenho o interesse em escrever sobre este tema, mas, por algum motivo, ainda não havia começado. Talvez, eu não houvesse encontrado um título chamativo o suficiente para o meu objetivo. Ah, e falando no título, peço perdão pela agressividade do mesmo, mas cri ser de suma relevância, para que o objetivo de meu texto fosse explícito, desde o início deste.
A redução da maioridade penal. Atualmente, se fala em dezesseis anos. Dizem que, nos Estados Unidos, a maioridade penal é de X. E, da mesma sorte, ouvem-se campanhas desta natureza com os mais agressivos e superficiais métodos: “se você gosta tanto deles, leve um para a sua casa”, ou “tem que matar tudo esses vagabundos; cometem crimes e não acontece nada”, ou qualquer outro comentário que siga essa linha.
Entretanto, eu paro para pensar: se é assim que começa, onde vai parar?
Sim, porque, se estamos interessados em fazer de um menor responsável pelos seus atos, e percebemos que crianças ainda menores cometem crimes, sistematicamente, vamos chegar ao ponto de exigir cadeira elétrica às crianças que não emprestarem o brinquedinho.
Não, não é exagero! É uma breve ilustração! Ou você acha tal sociedade seria impossível?
O que eu quero dizer é que o criminoso não é culpado pelos seus atos. Isso mesmo, não é! Ele é, simplesmente, uma vítima de um sistema ineficiente de locomoção social. Ele nasce em um ambiente hostil, já carregado de pessoas que não tiveram direito a uma educação de qualidade, a saúde básica e a uma estrutura social de apoio. Por este motivo, partiu para a criminalidade como única maneira – embora travestida – de encontrar alguma dignidade, na vida. O crime se torna a única escola em que essas pessoas podem cursar. E, uma criança inserida neste contexto, muito provavelmente, por não conhecer o outro lado da moeda ou, simplesmente, por inocência, seguirá os mesmos passos.
Eu grito, aos quatro ventos, inclusive, que, se eu não tivesse uma estrutura familiar minimamente estruturada, se não tivesse uma educação fundamental, se não tivesse pão na mesa, todos os dias, sem dúvida alguma, também buscaria um meio alternativo para sobreviver. Ou seja, se eu tivesse nascido no mesmo contexto social que os, ditos, marginais nasceram, certamente, eu também seria um criminoso.
Portanto, qual a solução? Reduzir a maioridade penal? Não. Morte a todos os criminosos? Muito menos!
A solução é simples, no papel. Que a educação pública seja adequada, a saúde seja eficiente. Enfim, que o sistema social funcione e proporcione a todo cidadão o que lhe é, por direito: condições de vida! Porque não me restam dúvidas de que qualquer homem – branco, preto, hetero, homo, pobre, rico, germânico ou africano – pode, muito bem, ser um cidadão de bem. E qualquer um dos mesmos, também está sujeito a uma vida criminosa, se for rodeado por um meio em que esta é a única via de levar a vida.

Portanto, meus caros, reduzir a maioridade penal não vai resolver, ao menos que queiramos que os bebês parem de chorar. Aí sim! Mas, caso contrário, estaremos apenas assassinando uma geração, a espera da próxima; criando um ciclo de morte tão vicioso que, muito em breve, não haverá mais um miserável sequer para bater o martelo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Minha Neve

Acabei de ver a neve cair, em caxias do Sul, depois de quase vinte anos, desde a última experiência.
Entretanto, embora tenha tentado, preferi deletar todos os registros desse dia. Não guardarei foto, ou filmagem, ou qualquer outro documento desta natureza.

Porque, perdoem-me a arrogância, mas essa neve que caiu, assim como o momento, os sentimentos e as lembranças que a mesma acarretou, é algo meu. E meu somente.

Os outros que aproveitem a neve da forma que acharem melhor. Eu prefiro, no entanto, não poluir um símbolo tão puro com outra forma de registro que não seja a própria memória.

E mesmo que amanhã, ao amanhecer, não haja mais resquício algum do fenômeno que se passou, esta noite, não me importarei. Mesmo que demore mais quase vinte anos; não ficarei sentido.
Porque hoje - e hoje, somente - aconteceu. E se manterá assim, até que minhas mais belas memórias se percam pelo universo...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Boa noite, morte.

“Todos vamos morrer”. Eis, aí uma frase que me deparei, há alguns anos, e que vem me acompanhando, não importa onde eu esteja. Eis aí uma questão a qual nenhum de nós pode escapar. Podemos, muito bem, tentar driblar; adiar, mas não importa: nosso encontro com a senhora morte é certo.
Da mesma forma, os avanços científicos, as descobertas da medicina. Tudo isso nada mais é do que uma forma de amenizar a tensão a qual ficamos diante a impotência, frente nossa finitude. Todos morreremos e, por conseqüência, todos tememos o dia em que morreremos. Talvez, até não tenhamos, diretamente, medo da morte, mas as conseqüências que podem acompanhá-la.
Não nos formarmos. Não ver nossos filhos crescerem. Não colhermos os frutos de nossos estudos e ficarmos ricos, ou famosos, ou ambos.
Algum fragmento de medo, ainda que limitado, existe, quando o assunto é a nossa morte. Somos, todos os dias, vulneráveis e deparados com nossa fragilidade. A sociedade, por conseqüência de suas diretrizes, nos posicionou em um campo em que ficamos, ao mesmo tempo, hábeis a usufruirmos melhor nossa longevidade, e insignificantes, frente ao poder crescente desenfreado.
A revolução das indústrias farmacêuticas, o conhecimento anatômico, as pesquisas biológicas – eis as formas as quais nos permitem alongar nossa estadia mundana. Entretanto, neste mesmo panorama histórico, estamos diante de bambas atômicas, veículos super potentes, poderes naturais. E isso me faz recordar de uma frase da sábia personagem dos quadrinhos, Mafalda, quando sua mãe responde que ainda não proibiram as armas nucleares.
Ela disse: “Seria lindo acordar um dia e saber que nossa vida depende só de nós”.
Vou além!
Voitaire, artista iluminista Frances, certa vez, nos disse: “Nós nascemos sozinhos. Nós vivemos sozinhos. Nós morremos sozinhos. E qualquer coisa neste intervalo que possa nos dar a ilusão de que não estamos sós, nós nos agarramos a ela.” E isso faz, inclusive, parecer que todo o resto é, somente, uma ilusão. Que crescemos segundo um modelo social de estudo, graduação, trabalho, uma cervejinha, no final de semana, um casamento estável, uma estrutura familiar,... e basta! Como se não nos restasse nada além do que ser apenas mais um dos cento e tantos bilhões de seres humanos que já habitaram nosso planeta.
Mais um que nasceu, no anonimato, e morreu, para ser esquecido. Mais um que, como disse o dramaturgo, nasceu sozinho e morreu sozinho?

Então, qual é o sentido, afinal?


PS: peço desculpas pela tensão do texto. Não tive interesse de passar mensagem alguma. Foi somente um desabafo. Tanto faz, pra mim, que ele tenha ficado sem estrutura e esteticamente feio. Afinal de contas, eu não posso anexar moral, nessa história. Afinal de contas, eu também não sei qual é.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Quero Teu Bem

Triste é o bem me quer
Que, quando não me quer,
Arranca quantas pétalas quiser
De todas as flores que puder.

Triste é o passarinho
Que, quando deixa o seu ninho,
E perde o seu caminho
Sempre entristecido, está sozinho.

Triste são as estrelas
Que, apesar de sempre tão belas,
São apenas vistas, das janelas,
Como singelas sentinelas.

Mas feliz é este encanto
Que, neste suspiro e neste pranto,
Quando me deparo com teu canto

Te idolatro tanto quanto.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Velho. E pronto!

Com base no texto e na experiência vivida pela minha namorada Stefany Godoy, gostaria de expressar alguns pontos acerca dos velhos.
Antes de tudo, moralistas de plantão: leiam o texto inteiro, antes de qualquer crítica equivocada. Refiro-me as pessoas com mais idade por velhos. Simples assim. Não tenho toque de sensibilidade para dizer “idosos” ou “melhor idade”. É velho, e pronto. E isso não é uma ofensa. Na verdade, é só uma denominação, sem nada a esconder. Qual o contrário de “claro”? Escuro. Qual o contrário de “branco”? Preto. Não precisa criar intriga onde não há. Ou, como diria meu pai, colocar chifre em cabeça de cavalo.
Pois bem, vamos ao que importa:
Entendo que os mais velhos devem ser respeitados pela sua experiência de vida e sua longa e exaustiva estrada. A mídia nos mostra os mais velhos como pessoas indefesas e, antes de qualquer qualidade, sábios. Nos diz, da mesma forma, que devemos respeitá-los, amá-los, ouvi-los e blá blá blá. Todavia, eu não mudo o discurso: IDOSOS DEVEM MERECER O RESPEITO OS QUAIS EXIGEM!
Porque podem haver velhos muito sábios, corretos e admiráveis, mas também existem - sim! - velhos sem vergonha, mal educados e de péssimo caráter. E andando aos montes. Não são todos (nem ma maioria), mas existem.

E é com este ponto como base que direciono minha “crítica” – se é que posso assim denominá-la - para questão das passagens de ônibus. Eu sempre me faço o mesmo questionamento: por que um idoso merece passe livre e um estudante de ensino superior não?
Deixo claro, novamente, antes que os moralistas venham me crucificar: não sou contra a isenção do valor das passagens aos idosos, mas não consigo aceitar que eles tenham direitos superiores aos estudantes.
Afinal de contas, sejamos exatos - e racionais, acima de tudo: por mais que os velhos tenham feito aquilo e acolá pelos nossos tempos; por mais que eles tenham traçado toda uma vida e estejam mais debilitados que a maioria das pessoas, o futuro de uma civilização é - e sempre será - os jovens estudantes.
Estudantes, inclusive, que tratarão dos velhos, em breve. Que descobriram formas de aliviar a dor, de prolongar a vida, de manter a sanidade,... Pois bem, jovens que farão, da vida dos velhos, vidas melhores.


Então, por que diabos uma sociedade deve dar prioridade aquele que já encaminhou o seu legado e já plantou suas sementes, frente aquele que tem ainda todo um caminho a percorrer?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Triste Passarinho, Quando Sozinho

Aquele dia,
Quase não nasceu
Uma fantasia,
Que quase se perdeu.

Ele não sorria,
Parecia tão tristonho
E, em sua melodia:
A tristeza de um sonho.

E vê-lo, então,
Naquele padecer;
Um ferido coração
Um rancor sem razão
Que preferia esquecer.

Oh, como me dói te ver sozinho!
Nesta dor – e neste pranto
Como é triste um passarinho
Que, sem encanto,

Amargurou seu canto.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um Pedido e Um Poema


Houve, naquela tarde tão fria,
Houve, naquela despretensão,
Naquela suave maresia
Um breve momento de tensão.

Houve, naquela indicação,
Houve, em meio ao formal,
Numa regida provocação
Um ardente desejo, quase irreal.

Há quem diria, também imoral
Há quem o chame de banal.
Mas confesso: não foi por mal.

Mas confesso, nesta embriagues;
Nesta infame insensatez
Confesso, e não sei o motivo
O quão grande; o quão nocivo...

Confesso, quase sem fala,
Que estes desejos que a boca cala
São pulsões que ao corpo consome
À mero toque do teu corpo e teu nome.