A noite havia caído e deixado, simplesmente, o padecer solitário das
estrelas. O vento que soprava suave o que parecia entonar a primeira sílaba do
seu nome. Lembrava, sutilmente, os acordes sucedidos de seu sorriso. E foi
quando, no modelo de uma exaustão, eu cai em um sono profundo
– apesar das leituras sinistras e das taças de café.
E fui levado, então, a um mundo paralelo. Inicialmente, não por um
sonho, mas uma recordação antiga. Havia o cheiro de seu cabelo; havia os traços
de seu rosto; havia a mágica de seus olhos. Mas havia, em meio a toda aquela
natureza – e justamente por um sonho – a realização de um desejo. Porque,
dentre as memórias e os anelos, encontrou-se o poeta à sua musa; um desejo ao
seu destino; um lábio, a outro.
Mas o dia raiou e ele, como o flash de uma fotografia, despertou o
inconsciente deste pobre enamorado. Porque, assim que os olhos se abriram para
a vigília; para a realidade, o maior sonho se tornou cego. E a inspiração que
cada gesto seu; o florescer de todo um campo, a cada fração de um sorriso. E o
apagar de toda a opressão e marasmo do mundo, naquele instante em que suas mãos
tatuadas haviam tocado a superfície do meu rosto e, num impulso quase
insensato; um tanto quanto imprudente, você selou cada uma das minhas palavras
– e todos os meus pensamentos – com o nascer de um beijo.
E aquelas mãos; aquela “superação”, escrita em inglês; aquele toque tão
sincero; tão simbólico; tão sinistro. E aquele olhar, a poucos dedos do meu,
apropriando-se das certezas de minha íris e modificando todos os meus conceitos
de realidade. Para, então, não haver mais razão; nem um pingo de coerência, em
todo o resto do mundo.
Apenas ela.
Mas, infelizmente, somente em sonho.
E, assim, naquele início de manhã, peguei-me aças débil! Queria, de
qualquer forma, tornar aquele sonho para reviver o seu olhar; reencontrar seu
sorriso e perder-me em seus lábios. Ainda que todo o mundo fosse irreal.
Porque, em suma, não me importava mais, se a realidade fosse distorcida; se eu
estivesse vivendo de um desejo ilusório.
Pois, afinal de contas – no término do dia – eu poderia tê-la, minha,
novamente; e sentir-me em teu abraço; teu, novamente. Por um fragmento de
instante que eu poderia fotografar, em minha memória e imortalizar, como se
fosse um retrato perfeito.
De um sonho distante.
E fascinante.












