Ao contrário do sentimento marido/mulher, escrever se trata de uma paixão que jamais dará espaço para o amor; o anelo de escrever uma poesia, um conto, um livro se firma no fogo eterno de um metafórico namoro novo. Ou seja, o sentimento pela arte da escrita se materializa como um espiritual prazer quase “orgásmico” que nunca se extingue, diferente à paixão entre humanos que se ameniza no decorrer de um ano a dois e se conserva através de conquistas materiais, casamento, filhos,... Assim, passando a se chamar amor.
Escrever é um dom, uma benção. Pode ser comparado também a uma droga que após as primeiras experiências, você se torna dependente. Mas, discriminando algumas horas a menos de sono e os constantes momentos de pouca lucidez de delírios concentrados, escrever não apresenta grandes efeitos colaterais.
Escrever é, meramente, uma maneira consciente de sonhar. Uma via de acesso a um mundo paralelo povoado por anjos e dragões, lágrimas e sorrisos e cães e árvores falantes. É viver um mundo que ninguém jamais viveu, embriagar-se de um vinho proibido em um cálice de ouro, se tornar o seu próprio eu em versões tão almejadas e, até então, inalcançáveis e poder salvar a princesa de seus sonhos milhares e milhares de vezes, cada vez com uma pitada adicional de emoção e confrontos épicos. O mundo das palavras é, simplesmente, o lugar perfeito de aconchego e sonhos realizados que Manuel Bandeira titulou “Pasárgada”. Mas não se trata de ser, ou não, amigo do rei, de ter qualquer mulher na cama que desejar. Esse mundo perfeito – ou Pasárgada, se preferir – é algo que vai além da minha medíocre explicação através de experiências vividas; é um lugar que até mesmo a mais solitária e tímida das almas pode ser a dona de seu próprio conto de fadas. Basta abrir a mente e deixar-se levar pelas palavras, tirar suas próprias interpretações, seguir o fluxo de seus momentos fragmentados de fantasias, mesmo que irracionais, e, se assim desejar, mudar tudo! Podendo, então, servir a cabeça de Salomé em uma bandeja de prata para João Batista.
E mesmo que seja apenas um filme processado pelas salas de sua mente, mentindo estará aquele que alegar que seu conto de fadas não passa, definitivamente, de um conto de fadas. Afinal, para o autor de uma ficção, um conto de fadas jamais será apenas tal. Tudo que é escrito, – e quando digo tudo, uso no sentido literal do significado – é mais um relato da biografia de um escritor.
Então, mesmo que o mais improvável e extravagante se torne parte de um cotidiano pertencente à normalidade, foi algo uma vez escrito por um homem, logo, um fato presenciado e vivido por um homem.
Destarte, a arte de escrever se trata de um movimento que corre paralelamente com a arte de viver. E se houvesse possibilidade de passar um pedido para o mundo dos escritores e leigos, seria que deixassem suas palavras voares livres por seu universo particular de sonhos e realidades, ao mesmo que ele venha a se chamar “esquecimento”.