
Acordo e, por mais que não queira, designo-me puro; a eterna mutação de minha pele. E choro, como quem jamais deveria chorar, pois não amo, não sofro e não creio, apenas questiono. E, desde questionamento, dou a luz ao paradoxo de minha existência. Como sendo, este, a vida e a carne em sua mais explícita prostituição. Sendo assim, sou vislumbre de uma incerteza; deste cálice eu nasci e por este pão quero morrer.
Fui castigado inúmeras vezes ao dar coerência e alicerces ao que o profeta tabulou como falho; desprovido da razão. Mas pequei apenas ao sustentar – em meu estomago – a idéia de que algo, realmente, pudesse mudar. Sim, caro irmão de descendência nenhuma, eles atiraram-me pedras como se tivessem a face “sin-cera”. O debate seguia estrelado por idiotas.
Meu pecado foi a dúvida e meu castigo, a certeza.
Agora, nesse amanhecer; nesse dia em que a terra parou para fitar-me, o poeta está morto. E, dele, restou somente esse quarto vazio, um palhaço e uma puta. Que agora gozam em orgias às luzes apagadas para os próprios pais.
O quarto, cheio de rabiscos, como um ideal nunca pregado, assim como eu, apaga memórias enquanto deixa secar a tinta fresca. O “vende-se” torna-se o título e tudo o que restou desse romance profano sem protagonista algum.
O palhaço sorri, aos quatro cantos do mundo, tal qual eu fui e serei, pois sabe que é desse hábito que coabita sua realidade e é desse martírio que ele ergue o alimento, à última das chibatadas. Então, veste-se de mais um dia, como tantos o foram; participando de mais um baile a fantasias e pregando mais uma das tantas máscaras à cara para nunca mais tirar.
Já a puta, como este que vos escreve, retoca a maquiagem nos banheiros de cassino; já não transparece que, em casa, criança nenhuma acorda durante a noite; pois essa também se foi, aos braços do poeta. E, rende-se, por fim, como todos e por outros que restaram às incertezas, tendo a vida tão complexa quando um par de pernas abertas. Por isso, goze, querido! Goze!
Agora, então, ao último pé da torre, eu miro a um penhasco e um arranha-céu. Um homem está para se jogar do vigésimo andar.
Pula, logo, hipócrita!
E deixa a escória bater palmas tão constantes e escandalosas, mas fúteis como gritos no deserto. Quase tão real quanto o chão aos teus lábios, mas nem comparado à covardia de teu suicídio.
Portanto, deixe-me secar essa lágrima que me fugiu para encontrar, aqui fora, um real motivo para chorar e, então, tornar aos meus olhos, como um filho pródigo; um babaca. E, se o espetáculo já acabou, deixe-me seguir meu caminho e matar, um pouco mais, este poeta como eu.
Por fim, cala-te! E deixa-me dormir.