Ontem à noite, eu fotografei uma bela mulher. Só
para reviver aquele momento, posteriormente. Arrependi-me e exclui tal
registro, porque temia arruinar a magia daquele lapso de instante, de quando
ela cruzou por mim e trocamos olhares.
Ontem à noite, eu deixei a chuva me inundar. Nadei
sobre as poças e chutei lama, espalhando gotas de chuva misturadas a terra para
todos os lados e para toda minha roupa. Depois, arrependi-me, porque o curso
daquela água se mantinha ali, como se nada tivesse acontecido.
Ontem à noite, eu colaborei com a pipoca de uma
desconhecida. Só para observar sua expressão retraída e hesitante, ao aceitar
minha prestação. Depois, arrependi-me, simplesmente por não ter sido um
comerciante completo e solicitado, em troca, o seu nome.
Ontem à noite, eu investi um bom tempo para
filosofar, sem pretensões, com um bom amigo. Disse-lhe sobre todos meus medos e
meus anseios. Arrependi-me, depois, por não ter sido humilde o suficiente para
ouvir os seus.
Ontem à noite, eu me entreguei a um bom e velho
Blues que tocava, em alguns palcos laterais. Aceitei cada acorde da maioria das
musicas e, disso, fiz uma poesia silenciosa, em meus pensamentos. Arrependi-me,
posteriormente, por não ter aberto os meus olhos e observado a paixão pela qual
os músicos expunham suas artes.
Hoje à noite, eu irei ao mesmo local. Verei, talvez,
a mesma bela mulher; banhar-me-ei na mesma chuva. Colaborarei mais uma pipoca a
um desconhecido. Encontrarei o mesmo amigo. Ouvirei o mesmo bom e velho blues.
E, talvez, esta noite, eu cometa os mesmos erros.
E, amanhã, talvez me arrependa, mais uma vez.
E viverei este ciclo de paixões de
arrependimentos.
Porque não tenho interesse algum em acertar, todos
os dias. Porque, com paixões, eu sou como um descascador de batatas: não corto
fininho; eu arranco pedaços.
Contando que o blues continue a tocar, todos os
dias, para que eu possa errar – e amar – um dia a mais.

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