quinta-feira, 24 de março de 2011

Sem precedentes; Sem pretensões


Deixe-me passar, cidadão.
Meu objetivo não perpassa ruína alguma
Eu não sou nenhum poeta de amores platônicos
Nem um hipócrita falando mal do meu país.

Não quero derrubar nenhuma força política
Tampouco questionar dogmas e credos.
Não quero mais do que entrar
E entorpecer-me de minha própria existência;
Deixar a incoerência falar por mim.

Não sou um ativista revolucionário
Nem um visionário com um livro e uma cruz;
Não acredito que o universo tenha uma lei concreta
Nem que todos irão pagar pelos erros que cometeram.

Não tenho medo dos mortos
Temo quem é vivo e, ainda,insano
E não vou mascarar minha ignorância com discursos emotivos
Quero apenas adentrar afesta e dançar conforme a dança.

Quem eu sou?

Sou o comodismo em si
E a realidade de uma versão patética de sonho.

Sou aquele que não ama
Que não crê
E que não chora.

Eu sou prole,
Um dia, quem sabe, progenitor.
De um sistema falido, mas que eu,
Assim como você e como todos,
Não tem interesse algum em mudar.

Afinal, por mais alto que voem minhas palavras,
Eu ainda não saí do sofá.

Portanto, cidadão,
Deixe-me passar.
Quero somente um café,
Uma conversa despretensiosa
E um par de pernas abertas ao final dessa madrugada.

Tenha uma boa noite.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tempo


O tempo beberá de minha juventude, tomando-a de mim. É oriundo de nossa entidade; não há forma de repelir.

Por incontáveis amanheceres, me perderei – permitindo-me perder – no travessão entre as palavras e a melodia. O mundo será só meu, apesar de o mesmo resultar em um possível egoísta; um incapaz de compartilhar as poesias que escreverei quando as batidas sólidas já não couberem mais em mim. Mas o farei. Sem arrependimento algum de tê-lo feito. Acredito que, mesmo que for guiado a assassinar muitas das notas e acordes, versos e estrofes, ainda assim me servirá para compreender a abstração dos relógios derretidos e a harmonia entre o preto e branco e o multicolor.

Certamente, eu amarei demais, mesmo que o amor verdadeiro jamais faça bater o coração; que jamais bata à porta. Não é um desanimo que, propriamente, me alague a face. Aprendi que o amor sempre foi o agente condutor entre o instinto e a razão – Dionísio e Apollo; sempre guiou a humanidade à evolução, tanto quanto à loucura. Mas é visível que não há, a meu ver, qualquer discordância entre ambos. Havendo, portanto, uma ação direta, ou não, do sentimento alfa em minha vida, serei grato por coexistir sobre a mesma civilização habitacional dessa áurea tão hábil à sedução.

Então, quando o tempo me sorver dos últimos fluidos orgânicos e gozar de minha impotência, serei desolado – apesar de grato – às paginas que, um dia, estavam em branco, deixando os pensamentos do poeta e do leitor voarem livres por seu universo subjetivo; seus maiores sonhos refogados, impossibilitando fronteiras. E, todavia, dotado de uma mente onde, outrora, palavras manavam e estoiravam e, agora, como pleno êxito, alegam páginas amareladas e abstratas à fachada, serei lúcido ao embriagar-me dessa insanidade.

Em tempo, calei meus pensamentos todas as vezes que a inquietude me direcionou a uma certeza. Afinal, este seria o maior desacato às minhas proles rabiscadas e reescritas. A certeza é uma dádiva oriunda e cabível apenas à escória; aos leitos à arte. E sempre fora um equívoco sem precedentes titular a grandiosidade da certeza frente ao questionamento. Por essa ignorância, e apesar disso, vi o mundo levar ao comando tolos dotados de certezas e excluir gênios vagando em desassossegos por seus questionamentos. Um desacerto sem tamanho.

Enfim, por destarte natural, serei vítima das causas e culpado pelas consequências. Jamais terei o tempo que desejo para viver dos meus amigos; tanto quanto, um dia, não terei mais amigos para usufruir o meu tempo. E serei a ternura e o desprazer de meus mais queridos sonhos; educando meus instintos à maior proximidade necessária da perfeição que, ao ultimato dos dias, eu puder usufruir. E terei ganho meu tempo se conseguir relevar os muitos universos que me cruzam estrada e se, acima de tudo, afinal de contas, conseguir, por uma batalha épica ou pura coincidência, ser o protagonista de meus romances.

terça-feira, 1 de março de 2011

Seu Sorriso Explícito À Minha Mente Inquieta

Abraço de bom grado um término de tarde em um silêncio breve e despretensioso aos redemoinhos de estrelas diante as vitrines. E à proeza da mais nobre casualidade poética, como a única consegue estrelar. Destarte, meus olhos afogaram-me aos seus, por um breve comercial de existência. Pois, meus caros, a tormenta de meus exércitos em monólogos estava a vestir fardas quando ela presenteou os últimos acordes do dia, tal qual um ás abotoado ao paletó, com um sorriso.

Entorpecido a profetizar majestade tamanha às tábuas dos porões divinos de minha subjetividade, mas ilhado à camisa de força de meus alicerces sociais, estagnei ao verso impróprio; decorando de futilidades todo o alheio à dama de ferro que me aprisionava, para banalizar, à plena insanidade, seu feitiço. Dominei a essência, retocando protocolos básicos e diplomáticos de autocontrole para sustento, ao tom que permaneci à sombra das coxias.

Mas sua presença persistia. Seu sorriso, planteando de loucura a palidez de minha face desnorteada, tão intensa como uma tempestade de areia às miragens do deserto árido e fulminante.

Nada a ser feito; nada casual. Fiz de mim o culpado de meu próprio arsenal de contratos, trazendo à tona a vulnerabilidade que o vislumbre me impregnou. Pois, então, a lucidez de seu sorriso se fez o espelho à insanidade de meus pensamentos. Tarde demais.

Você despistava, sobre sorriso constante, as margens de minha rendição. Seguiria, assim, por nada salientar, em silêncio de incontáveis serenatas ao deixar-te partir. E você, então, a levar as cordas de meu dedilhado enquanto eu, em êxodo prologado de sua apresentação, levito minhas fragmentadas memórias à base do jasmim de papel laminado que fiz esperando o dia tornar ao trono em seu apogeu de incertezas e infinidades. Talvez, consigo, traga o sorriso que sorvi; que se despediu deixando um rastro de um suave perfume, somente, mas em mim se fez parasita ao som ambiente de uma inquietude mental.