
Há de seguir. Voar livre; alto, como se nada mais tivesse importância alguma. Porque, se não fosse o peso das asas lavadas pelas pesadas sinfonias que as lágrimas e sorrisos deixaram, talvez Ícaro jamais tivesse caído. O tempo que o procedeu e as deixas que o partilharam o pão e o cálice o entorpeceram; deixaram-no à beira da queda a própria existência, como se tratasse do topo do mundo e dos vales da onda, a face real frente ao espelho.
E assim, as palavras seguem, como notas dramáticas de um coral de sopros. A áurea não corroe mais as paredes do cativeiro que seu lar fronteirava e ele aprendeu, como o galante noviço que sempre foi e será, a justificar as suas utopias em vôos fadigantes. A exaustão dava forma à sua liberdade pois, por mais que as fronteiras de seus mestres o rendessem ao extremo do próprio corpo, ele tinha muito ainda que explorar. E assim o faria.
Correu pelos corredores que emanavam seus pesadelos ao estopim da abstração; mais perigosos e amedrontadores do que jamais o foram e seriam, se não fossem suas barreiras. E, de olhos bem abertos, ele se desfez da bússola que carregava ao colo como um filho e faceou a tormenta. Agora, por mais errônea que estivesse a senda que trilhava, a macieira ainda daria frutos. O tempo seguia correndo seu rumo e ele seguia àlgum lugar.
Não tinha para onde ir, mas, ainda assim, iria. Mesmo que não tivesse nada ou ninguém a esperá-lo; mesmo que fosse surpreendido pelas palmas avassaladoras ou pelo silêncio absoluto. Ainda que perdesse as causas e conseqüências e rendesse o corpo, mas os propósitos e a alma seguiriam intactos; o fio de seda a cativar seu sopro.
Destarte, em convite à vida como primeiro plano e protagonista, o espetáculo há de prosseguir. E, ao apogeu de sua melodia, ele pode pairar seu vôo e deixar o vento aromatizar o desfecho de seus ideais. Trata-se de um homem que voa alto; um anjo que corre livre. Trata-se de um propósito de imediatismo; não há tempo à rendição. A frustração é um risco, a espera é uma inquietude. Trata-se de uma realidade de aqui e agora.
