Era alta madrugada. A noite se mostrava envolvente. Todavia, eu estava deslocado. Deslocado. Deslocado. Como um passageiro de avião que mira o chão, aos seus pés, sem imaginar que aquele ainda era o seu mundo.
Virei-me. Dei as costas para este mesmo mundo. Deixei que as vozes se distanciassem. Distantes. Distantes. Como se aquela noite deixasse de ser real. Como se eu fosse um mero expectador. Assistindo a tudo, do lado de fora. Daquele espaço que mesclava entre vozes e batidas. Brisas e pingos. Goles e tragadas.
Segurei - com unhas e dentes; pele o osso - uma memória contida. Daquela conversa despretensiosa. Despretensiosa. Despretensiosa. Um rosto delirante. Rascunhado, como se fosse belo demais para ser passado a limpo. E aquele par de longas pernas, em harmonia com a madrugada. Agarrei-me, assim que aquelas formas - e traços, e gestos - se fizeram material. Amarrei cada minuto daquela longa - e demorada - fila.
Depois de alguns segundos. Alguns fragmentos de instantes. Alguns ventos de madrugada metamorfoseando-se em dia. Dia. Dia. Eu me vi. Débil e vislumbrado. Em um sorriso sem antecedentes. Sem conter-me.
Talvez, até, estivesse sendo igualmente assistido.
Portanto, virei-me! Encarei o espaço com minhas tantas caras fissuradas e tantas bocas determinadas. Destemidas. Desteminas. Iria - enfim! - atrás daquele rosto retangular de Afrodite. Correria - até o fim do mundo; até o final da madrugada - buscando aqueles lábios contidos da Vênus de Milo. Aquele sorriso formoso de Helena de Tróia. Daqueles olhos delineados, como os da própria Cleópatra.
Ainda que eu não soubesse o seu nome, sequer.
Mas, quando cheguei. E por tantas vezes vaguei. De corredor em corredor. De caminhos destinados. Destino. Destino. Simplesmente, encontrei ninguém, senão meu rosto, suado e febril, de frente ao espelho sujo do banheiro.
E ela já havia partido.
E eu, vacilante. Errante, como um derrotando, tornando de batalha. Fechei meus olhos, esperando acabar aquele tempo. Jurando para que tudo fosse um sonho. E que tudo estivesse normal. E ela talvez, nem existisse.
Mas eu estava errado. E havia perdido. Aquele dia de. D. D.
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