sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma Comemoração “Sin-cera”


As champagnes estouram e as rolhas saltam pelos céus acompanhando a marcha sincronizada de imagens e sons das baterias de foguetes multicoloridos; os sorrisos são onipresentes apresentando as individualidades de suas gargalhadas – metáforas de suas subjetividades – e, como se tudo fosse um sonho a ser sonhado, a felicidade reluz em apogeu a maquiagem social moldada unicamente para disfarçar que foi apenas mais um ano no qual nos escondemos por detrás de nosso sobrenome, certificados profissionais e títulos civis.

Tornou-se, infelizmente, filosofia anual passar correndo atrás de nossos atrasos, buscando alcançar única e exclusivamente o quadro de estabilidade que éramos presenteados quando não tínhamos tantas responsabilidades. Entretanto, todos os anos, (e dou graças a isso) os pesos sobre nossos ombros aumenta e são mais trezentos e sessenta e cinco dias carregando-os. Por isso, estamos sempre em déficit com nosso self; marcando dívidas sobre dívidas em uma dízima periódica de pseudo-necessidades – projeções de uma sociedade disciplinadora. E, assim, ao término de um ciclo anual, mascaramos nossa hipocrisia com cera sobre a face, ausentando a exposição de nosso egocentrismo. Foi, sim, mais um ano em que a maioria de nós catamos sujeira do próprio umbigo se preocupando unicamente com o assassino da novela das oito e com o próximo eliminado do reality show do momento; que não erguemos um punho em batalha, protestando concreto e asfalto em almejo a um mundo melhor.

Claro, todos, também, fazem questão de assistir ao jornal matinal no conforto de sua poltrona sobre o sabor açucarado de um chocolate-quente e protestar às quatro paredes de sua sala de estar bem decorada de que está tudo errado. Concordo. Mas, então, meu caro, pare e pense: o que você fez nesse último ano para modificar esse quadro que sequer você dispensa chamar de lamentável?

É fim de ano; tempo de celebrar, mas, além de um todo, um momento propício para levarmos coerência e raciocínio quanto à bondade que passamos ao alheio e o quanto ainda podemos fazer para uma projeção benéfica ao ambiente no qual também fazemos parte. Que não seja apenas uma desculpa para reunir familiares e embebedarem-se com o teor alcoólico de nossas tormentas; quando ignoramos nossos fantasmas e mascaramos a hipocrisia que alimentamos durante todo um ano. Que não tenhamos que passar sentados, novamente, em frente à televisão assistindo à retrospectiva desse último ciclo e pensarmos que somos felizes em termos sobrevivido à tudo isso; como se a sorte estivesse presente a todos.

Estourem foguetes e bebam das melhores champagnes. Mas, se possível, parem apenas por um segundo e reflitam se a sensação real é de felicidade; de dever cumprido, ou somente uma maquiagem social baseada na displicência de todo um ano e na negligencia que cuspimos às lágrimas das pessoas que não soubemos amar; que não tivemos o empenho de acolher e a batalha para ajudar.

Por mais: que dois mil e onze seja mais; muito mais produtivo e racional do que dois mil e dez; como deve ser o ciclo humano em vida – sempre almejando mais e mais; não se entregando ao comodismo e ao burocrático. “Cresçam e aprendam”, sempre.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Face e A Percepção




Estagnado;

Preso sob a perversa face da coerência.

Enquanto o brilho de sua recordação quase que distante

Evoca o travessão dentre a realidade e a percepção.


Leviano;

Moldado às pressas com o restante da matéria prima

E submisso à refração de sua imagem;

Como se o silêncio fosse representante presente do descaso.


Não menos que racional;

Não mais que necessário.


Ou acredita, realmente,

Que a matéria se expressava de forma singela?

Que o sarcasmo instruía a tranqüilidade?

E que a clareza fosse fato consumado?


Não, minha cara residente mental.

Mesmo que muito tenha sido realizado,

Pouco tenha sido dito

E nada tenha sido declarado;

A realidade foi distorcida

E, por fim, saiba:


Também sofri e fui ferido

Como se fosse além do imaginável

Saiba: eu também perdi.

domingo, 12 de dezembro de 2010

DO PÓ AO PÓ: O trabalho escravo que sobrevive no Brasil.


É de ciência popular de que a Abolição da Escravatura foi efetuada há mais de cento e vinte anos; que a Lei Áurea foi assinada no dia treze de maio de 1888 pela Princesa Isabel (aquela que se amarrava num negão; que fumou um baseado, segundo a musica “Vampiro Doidão” de Raul Seixas) com o propósito de tornar livre qualquer ser humano. Mas, ainda assim, em plena atualidade – já que se tornou tão lindo e clichê falarmos nos avanços diversos do Século XXI – existe casos de trabalho escravo sendo realizados. Índia? Japão? Não, meus caros, o horror da mão de obra forçada ocorre sobre nossos olhos; diante de nossas fronteiras territoriais. Sim! Nesse Brasil; um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

A questão que materializa esse quadro lamentável e vergonhoso para nossas histórias – tanto quanto país quanto como seres humanos – é a tão famosa busca por “Neverland”; a terra prometida de nossos contos de fada. Mas, quando apresentado, esse conto de fadas repleto de promessas e recompensas apresenta a dura realidade de que o sonho acabou e que aquele almejo que se buscava com os passos distantes de casa nada mais era do que um faz de conta. E, nessa expressão de metáforas, homens saíam de suas casas, suas terras em busca de alguma renda que pudesse dar consistência às estruturas financeiras de suas famílias; uma forma de livrarem-se da miséria do cotidiano no qual estão estagnados.

Vão parar nas terras perdidas da Amazônia. Descalços de ciência da verdade que encontrarão, trazendo a esperança na bagagem e carregando aos ombros o fardo e a necessidade de tornar às suas famílias com os bolsos trazendo mais do que migalhas de pão. Assim, chegando lá, trocam faces com inúmeros seres humanos na mesma situação nas quais se encontram e, como se não bastasse, sabe-se que os dados apontam Piauí e Maranhão como detentor de oitenta por cento de todo o trabalho escravo que ocorre no Brasil – demanda estimada em mais de vinte e cinco mil pessoas.

O filme “As Terras do Bem-Virá” com a direção de Alexandre Rampazzo – nome salientando a promessa de sucesso com o ingresso a tais lugares – caracteriza a imagem chocante, mas verídica, da situação nas quais vivem milhares de homens. Da chegada à busca de algum trabalho e, como na mais bela fantasia, lá está o gênio da lâmpada mágica concedendo o tão almejado desejo. Mas, o príncipe demonstra-se um perverso com propósitos nada humanos. Ou seja, na linguagem real da situação, o único objetivo real do proprietário das terras – assim como qualquer Senhor Feudal ou personagem histórico em sua posição – é o lucro de uma forma a qual abdica do direito do ser humano em ser humano; forçando o trabalho com base em ameaças e cobranças de dívidas inexistentes. Assim, tomando posse de uma mão de obra pesada e de custos praticamente nulos. Então, o único travessão que diferencia a atualidade do princípio da escravidão é que, mediante os direitos humanos, – como se houvesse algum respeito honesto e digno sobre – não há venda de material vivo; humano. E, diretamente conectado como os dois lados da mesma moeda, os abusos psicológicos e físicos se tornam evidentes e, infelizmente, naturais. O homem torna-se o lobo do homem.

Mas, como se não houvesse necessidade alguma de respeitar o próximo, um homem com acessórios de ouro; que trabalha com dez estrelas penduradas ao peito detrás de sua luxuosa janela de trabalho dá o grito de julgamento de morte àquele que decidir sair de suas terras, fatigado de sua jornada para deitar os braços sobre um pouso; à viagem da mente lançado e render o corpo entregue à paz do bom repouso – como descreveria Willian Shakespeare. E lá se vai o pedaço de carne sem direitos troteando vacilante contra o horizonte até ser certeiramente presenteado por um chumbo grosso despedaçado de uma arma de fogo, fazendo-o ir ao chão como mais um fragmento quase podre de adubo; mais uma forma singela e absoluta de tornar o material descartável uma forma de pequeno lucro. Do pó viestes – sobre o barro, lutara e trabalhara – e ao pó retornastes.

Todavia, avaliando sobre um contexto integral, o filme de Alexandre Rampazzo e a Amazônia representam o mundo inteiro em que vivemos, não somente a expressão materializada da escravatura; não somente a exposição concreta da carne. Todos os dias, somos regidos por princípios de tortura humana sobre as faces da psicologia e fisiologia; entregamos nosso tempo, nossos direitos e nossas aptidões por propósitos, quase sempre, distorcidos de promessas. Aceitamos, com as mãos atadas às grades de nossos lares, o sangue correndo no jornal e as juras de uma moça tão bela, num sol de Ipanema e, como se nossa estrutura de ego não nos permitisse deixar de sonhar, somos guiados por eternas bifurcações que rezam guiar até Pasárgada, onde somos amigos do rei, temos a mulher que queremos na cama que escolhermos. Como se as crianças que morrem de fome, a desigualdade social e o capitalismo selvagem e opressor fossem representantes diretos do rumo de nossas vidas; do escrever de nossas histórias e da essência de nossa humanidade.

Passamos uma vida buscando a saída de nossos labirintos existenciais, sempre perseguidos pelo minotauro de nossas batalhas e, por fim, estamos tão entregues aos nós de nossas escolhas, renuncias e deveres que acabamos por nos transformar em um inseto, na Metamorfose de Kafka, enquanto vivemos nossos próprios Infernos de Dante.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vivo um mundo descartável

Agora mesmo, por mais lúcido e tranqüilo que venho a escrever-lhes, deixo a ciência exata que vivo um estágio de desconforto e inquietude e esse todo em dever a uma imagem – um cartoon - na qual fui arremessado contra a tela de meu computador. A tal era abstrata, mas passava a figura de um ser humano sendo jogado no lixo orgânico. Ou seja, ao meu entendimento, o ser humano como figura descartável, não aproveitável. É claro, a partir de Rebolation, Happy Rock’s e afins musicais e da cultura contemporânea, até se explicaria, em tese. Todavia, a que ponto representaria a veracidade ou metáfora dessa imagem? O quanto isso pode vir a ser uma crítica social ou um retrato-falado em detalhamento preciso do que vivemos todos os dias?


Certamente, não seria um dizer errôneo, apesar de sarcástico, frisar que, a cada nova ressaca, um novo produto/material/qualquer outra coisa cria título de descartável manipulado por um homem descartável vivendo um mundo descartável. E, certamente, essa foi uma redundância descartável.


Como é instintivo de nossa figura como seres pensantes habitantes de um planeta coberto por setenta por cento de sua extensão por água, - mas chamado de Planeta Terra - somos nada além de tremendos sedentários naturais; almas vivas tomadas por um comodismo incontestável e incontrolável. Sendo assim, tudo se apresenta com maior acessibilidade se não houver necessidade de resgatar, de reciclar; se não for essencial readequar tudo e todos a um ponto de utilidade renovável. Ou seja, tudo é mais fácil se pudermos, simples e banalmente, abrir o cesto de lixo e “puxarmos a descarga” da maioria de nossas responsabilidades. Então, assim, vamos vivendo e, sob o papel, evoluindo – é claro, sob o papel, afinal, tudo é tão lindo quando a tese apresenta-se como registro oficial. E não me refiro apenas a objetos. Claro que não! Hoje mesmo, acredito que seria um grande investimento custo/benefício criar aterros sanitários para depositarmos tanto sentimentos, ideologias e gritos de batalha quanto idosos, recém-nascidos e demais figuras sociais que receberem o carimbo de “inutilizáveis; descartáveis”.


Materiais festivos, materiais escolares, eletrodomésticos, passatempos,... Tudo nada mais é do que um produto formulado e já adaptado a partir de uma determinada vida útil. Depois disso, nenhum outro destinatário que não seja o seu esquecimento integral. Fizemos isso com tudo; com todos. Não carregamos mais remorso por perdermos amigos por futilidades absurdas da mesma forma que não nos permitimos mais o luto. “Morreu algum ente querido? Tranqüilizantes e antidepressivos para toda a família, agora!” Simples assim. O Sofrimento da perda, indispensável para o crescimento, é manipulável e tornou-se uma questão de “querer, ou não”. Mas, por mais crítico que me posicione quanto a tal, eu não anexo culpa a todos ou a qualquer um que o for. Por tristeza interna, sou ciente que somos uma máquina – ou arma – de imensurável instabilidade e sem controle absoluto de nossa “placa mãe”. Assim me refiro aos porões de nossa mente nas quais não temos acesso, mas que nos influenciam diretamente quanto à formação de nossa subjetividade – o inconsciente. Somos tão dotados do saber de nossas responsabilidades e deveres cotidianos e, de forma indireta, atormentados por tal informação que qualquer comodismo apresentado se é processado com uma provocancia apetitosa e nos manipula, acabando por nos consumir. E, assim, criamos conceitos pré-estabelecidos que conciliamos aos outros “poréns” que costumam tirar o nosso sono.

Dessa forma, torna-se tudo - e cada vez mais – fragmento de um mundo descartável. Como se nada mais fosse “pra vida inteira”. E, apesar de ainda nos venderem o amor como o presente mais belo da humanidade, da mesma forma, nos presenteiam com o “vai um, vem oito”. Criando um paradigma engraçado que, se pudesse verbalizar, seria o seguinte: “Você é o meu amor; razão da minha existência, não saberia viver sem ter você. Mas, se por um total acaso, não dermos certo, tudo bem! Há muitos outros peixes no mar, amanhã mesmo eu me perco em uma nova paixão e, essa sim, será pra sempre, eu acho.”


Trágico, mas é o modismo. A atualidade é essa e temos total saber disso. Esse é o retrato particularmente descrito quando a minha visão de mundo único e insubstituível, ou não.

sábado, 13 de novembro de 2010

INQUIETUDE - Prefácio

FOI EM UM ESTRONDO MENTAL caracterizando a peregrinação entre dois mundos que Rafael Bianco despertou. Aos suspiros acelerados, taquicardia, garganta seca e suando frio que se reencontrou. Levantou-se, caminhou lento e distante até a cozinha, servindo-se de um copo de água gelada. Sem sono, dirigiu-se até a sacada de sua cobertura, às margens da sua piscina térmica de hidromassagem e, sob o escoro das palmeiras artificiais simulando um desenho abstrato da luz da lua no seu corpo nu e impecavelmente definido, passou perdido em sua subjetividade por momentos nada precisos. Mais uma vez, sonhara com o momento que mais desejava perder na memória.


De qualquer forma, diferente não poderia ser. Aquela noite completava mais um ciclo de trezentos e sessenta e cinco dias desde que abandonara o trono de vítima das causas para assumir posse como mais um culpado pelas conseqüências. Dessa vez, uma data ainda mais relevante e memorável: completava-se o décimo ciclo.


Um suspiro profundo e um olhar no horizonte de luzes e sons pela madrugada de Caxias do Sul salientavam a ausência de Rafael àquele espaço. Ele avaliava e tentava incorporar-se aos sentidos de sua vítima ao fragmento certeiro de tempo em que a lâmina penetrou em sua pele, atravessando uma camada de gordura e rasgando sua garganta e veias responsáveis pela oxigenação cerebral; ao instante seguinte em que as pernas ficaram bambas fazendo-o cair de joelhos já decorado por uma gravata vermelha crescente sobre sua camisa branca, enquanto a visão encaminhava-se para a escuridão absoluta até que o chão fosse presenteado por um corpo já sem vida e aceitasse o líquido vital percorrendo pelas depressões dos pedregulhos em formas geométricas da calçada.


Todavia, ele não era a vítima. Rafael era o assassino e sua mente, naquele instante, mantinha-se transparente como jamais havia se sentido. A poça de sangue fluindo ampla às pulsações cada vez mais lentas do coração ainda pulsante do homem a sua frente tomava toda a sua atenção. E parou. Ele sentia um calafrio na espinha quase sufocante; onipresente em seu corpo, e a lâmina do crime em suas mãos mantinha-se firme. Enquanto isso, sua mente trabalhava acelerada e absoluta.


Pela periferia de seu olhar, certificava-se de que não havia sequer uma figura viva em sua presença, calculava os passos que deveria traçar a partir daquele instante para não ser incriminado e, por mais que tentasse reprimir tal sentimento, sentia o orgulho correndo em suas veias, sobre o seu sorriso exposto e seus olhos focados ao acompanhar a precisão cirúrgica do corte que fizera no pescoço de Vinícius Enzveiler. Não havia sinal qualquer de repressão ou de hesitação por parte de Rafael ao executar o crime. Era uma decisão absoluta do seu eu. E, por mais errado socialmente que a situação se contava, todo o lamento de Rafael se resumia a não conseguir sentir arrependimento ou remorso algum quanto ao seu último ato.


Naquela noite, ele havia materializado a angustia reprimida por seu ego; a noite de outrora que predestinaria o restante de sua vida ao sigilo. Naquela noite, Rafael havia reconstituído o exato instante que o titulara um assassino.


- Parabéns por mais esse ano de existência sigilosa, minha cara mórbida memória.


E, brindando a água ao luar, bebeu do último gole do copo, liberou mais um suspiro repreendido e, com sua cabeça latejando, tomada por pensamentos, seguiu até seu quarto e deitou-se no travesseiro de penas de ganso, cobriu-se com o lençol de seda italiana e ali martirizou em claro os fantasmas de sua história desde a morte de seus pais até o amanhecer seguinte.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Agentes da Madrugada

Então, o silêncio. Preciso e absoluto, agindo com uma maestria cirúrgica. Eis o instante em que os bêbados tornam-se poetas, uivos apresentam-se como melodias e estrelas assistem ao teatro da existência como uma platéia atenta.

Não entendo exatamente o motivo, creio que seja porque há ciência de que a paz e a tranqüilidade contínua persistirão até o próximo amanhecer. Sim. Provavelmente a razão pela qual a madrugada tanto me encanta seja o breve prazer de desfrutar da solidão sem qualquer receio de estar, realmente, só. Apenas vivendo o mesmo mundo no qual meus entes queridos repousam em seus travesseiros, envoltos em seus cobertores nesse inverno que nunca nos abandona em Caxias do Sul. Mas, enfim, não sei o que seria de cada fragmento de meu meio humano e racional caso não fosse a honra do luar me presenteando com essa horas de autoconhecimento; minha bela madrugada.

Vejamos o mundo:

As ruas vazias; o vento soprando tranqüilo, suavizando sua peregrinação e, acima de tudo, assinatura real desse agente tentador, o nada. O silêncio astuto valorizando o complexo e intacto nada ainda esperando uma tradução coerente aos murros da racionalidade humana.

Mas a madrugada é simples; mecanicamente estável, apesar de todos seus encantos; não há qualquer mistério rondando-a. Ela apenas existe, apesar de muitos soldados do sol se recusar a perceber, mas, ainda assim, eles sabem de sua existência. Todos sabem. Sabem que na madrugada todas as emoções são intensificadas – o afeto e a ira; o desejo e a paixão, como o ódio e o rancor,... Todos vivem entrelaçados em suas particularidades, correndo livres pelas ruas desertas que a madrugada permitir. Mas, é nesse percurso discreto de nosso cotidiano que essas emoções, neuronais ou cardiovasculares, realmente apresentam a sua face e esplendor.

As lágrimas de tristeza proporcionadas por um coração partido e os sorrisos escancarados pela embriagues dos bares da vida; os autoconhecimentos em plena solidão e as orgias brindando o término de uma noite. Cada universo em si, não mais reprimidos pela ditadura racional da exposição solar, mas uma dama nua nas proximidades de onde os olhos alcançam, mesmo fechados. Talvez, então, os sonhos não sejam frutos de nosso descanso mental em posição horizontal sobre colchões de penas de ganso, mas um presente natural que a madrugada entrega aos ares para transpirarmos e, dentro de nossas crenças e habilidades, vivermos intensamente cada pétala da rosa que caí ao chão gelado, sem assassinar a bela ou a fera que vive dentro de cada um de nós.

E é nessa madrugada, minha agente secreta, natural e encantadora, que o mais esperto anjo toma as rédeas; é nesse instante simplório e desvirtuado de nossa existência que a humanidade de nossas mentes acaba por libertar o carrasco de nossas fobias e o salvador de nosso crescimento. O destino.

Tão destemido quanto o arqueiro verde da floresta de Sherwood, o destino solta gargalhadas frente às nossas fronteiras – nossas restrições quanto ao nosso próprio mundo. Ele sabe que é temido e, por isso, em célebres e épicas aventuras e travessuras para impressionar a lua que se preocupa somente em refletir o brilho do sol, ele é a ironia e a perversão em pessoa: encanta-nos com uma tentação das sereias tocando suas harpas abençoadas e cantando aos quatro ventos aos marinheiros da madrugada e, então, ao obter nossa posse e guarda em suas mãos, nos entrega de mãos atadas a mais cruel de nossas faces. Nós mesmos.

Faz com que o espelho revele um olhar perdido e um sorriso abafado. Trás a chuva em preto e branco aos reflexos de nossas almas. E, por isso, o destino carrega a fama simplória e correta, mas injustificável, de vilão. É por mostrar o homem como lobo do próprio homem em uma batalha de olho por olho e dente por dente que é temido e, até, odiado. Mas, ainda assim, ele sorri. Ele sabe que, amanhã, quando o sol tomar conta de um céu não mais estrelado, cada uma de suas vítimas secará suas lágrimas e saberá o caminho certo a seguir. Pois, assim como foram feridas, souberam se levantar, posicionar espada e escuro em proteção ao elmo de suas ideologias e, apesar de não compreenderem, foram doutrinadas aos ensinamentos dos dois maiores mestres pelos palcos de espetáculos que titulamos de vida. Permitiram-se adquirir conhecimento e armas para seguir em frente com a precisão do destino e o mistério de si mesmos.

E esse todo acompanhado pelos ares que ainda seguiam firmes seus rumos, dentre sentimentos intensificados e metáforas perdidas nos cantos perdidos, esperando pelos poetas de barro e soldadinhos de chumbo a resgatá-los. E essa integra, em sua exatidão, jogada no tabuleiro que a madrugada oferece ao jogo.

Agora, provavelmente, enquanto ouço os pássaros à minha janela que já acusa os primeiros raios de sol, terei que entregar-me ao descanso, não sou de aço e ainda sou residente carnal da humanidade; prisioneiro de um corpo finito. Mas, por fim, mais madrugadas me esperam. Tão belas, silenciosas e magníficas como a compreensão de cada emoção pela qual ontem chorei e hoje sorri. E, assim, como um dever sem fronteiras; um silêncio preciso e absoluto, agindo com uma maestria plenamente humana, entrego-me ao sono. Bom dia, vasto sol. Boa noite, minha madrugada.

domingo, 7 de novembro de 2010

01/01/0001


Nasceu o dia, eu nasci. Agora, sou uma criança, um ser vivo; tenho poucos instantes de existência, mas me titulo “alguém”. Ou, infelizmente, não.


Fui tirado de um ambiente confortável e acolhedor onde tinha acesso contínuo a tudo que precisava e que poderia desejar e, logo de largada, sou recebido por um troglodita com uma palma certeira em minhas nádegas sensíveis. Assim, após confirmarem o meu pranto iminente e desesperado, sou roubado da presença de minha genitora; meu único porto seguro conhecido.


Transferido, parei em um ambiente carcerário no qual me algemaram uma das mãos à uma tarja com símbolos desconhecidos transcritos em continuidade e que, creio eu, poderiam até ter algum significado barato. Abusaram de mim com múltiplas mãos biônicas e inteligentes. Sons estrondosos em meus ouvidos, metais gelados em meus pés e mãos, agulhas, luzes fortes,...

Senhor! Eu estava em um universo só meu! Escuro, quente, acolhedor, silencioso. Será que é possível respeitar um pouco o meu espaço e minha individualidade?! Afinal, esse é o meu corpo, camarada!


Enfim, estava cansado, cheguei a minha fatiga natural. Entrei em estado de sono.
Ao retornar ao meu estado de vigília, surpreendentemente, tudo ficou ainda mais confuso. Vomitaram sobre mim datas, nomes e títulos dos mais complexos. Já me deram um nome, um apelido, acharam em mim qualidades e defeitos – os adjetivos dos mais variáveis. Eu sou filho, sou irmão, sou afilhado, eu sou Caio, sou Pablo, sou João. Eu sou Viviane, sou Caroline, sou Amanda. E, da mesma forma, eu tenho um número de contato, um Registro Geral, um CPF, uma data de nascimento, um cadastro de existência.


E essas letras? E esses números? O que eu faço com tudo isso?! Estão horrorizando os primórdios de minha história com uma velhice intelectual mais repugnante que as “papinhas” de banana e pão com leite que me atiram garganta abaixo todos os dias.



Oi! Eu não sou um recém nascido e estes não e tratam de meus reais problemas, mas, por outro lado, este é o mundo em que vivemos. Todos os instantes, somos titulados com rótulos secos, como se nada mais fossemos que um complexo de números, de letras. Por isso, ditei um texto construído sobre uma metáfora pela qual já se fez concreta a todos. Dessa forma, cada um poderá assimilar esse “primeiro dia de vida” da maneira que bem entender, sem a frieza dos rótulos; sem conceitos pré-estabelecidos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Chegando Aos Meus Vinte




Sim! Cá estou eu! Quem diria, hein? Completando míseras duas décadas de vida e já tomado por histórias atípicas e épicas que, deveras emocionado, contarei aos meus netos futuramente – se o tempo assim me possibilitar. Mas, parece que foi ontem que seguia fazendo artes das mais variáveis, não aceitas e jamais compreendidas pelos arredores da minha pequena cidade natal; Maravilha – Santa Catarina. É, mas o tempo passou e acordo, então, vendo que já não sou mais o mesmo de ontem e, acima de tudo, percebendo o valor que essa mudança carrega consigo.


Primeiramente, vi que, como toda e qualquer pessoa, eu cresci. Assim como errei e cometi pecados pelos quais não guardo orgulho algum, mas, ao mesmo tempo, entreguei-me ao máximo tentando, sobre todas as variáveis e obstáculos, ser eu mesmo. E esse foi meu maior presente. Sim, creio que, devido àlgumas escolhas, perdi pessoas e figuras importantes nesse metafórico caminho que tracei, até o então. Todavia, hoje, vejo que foi por um bom propósito.


Já passei noites em claro, já passei tardes inteiras dormindo. Já fui o sorteado pelo destino a amar intensamente e viver tal sentimento à flor da pele e da alma; já sofri e esbravejei aos quatro cantos de meus quartos e folhas de papel por uma paixão não correspondida. Martirizei sentimentos, esqueci datas importantes, dormir com vontade, acordei arrependido, acordei de ressaca. Já fugi de casa, nem lembro como cheguei; já zerei um trabalho (mais de uma vez), já gabaritei uma avaliação (nem tantas assim). Já esqueci o nome de uma música, já puxei uma do “fundo do baú”; rasguei a garganta em um grito de gol e perdi a voz cantando no chuveiro. Já perdi a esperança no ser humano, como já descobri a verdade dentro de mim. Tudo isso em meus quase vinte anos de existência.


Já senti amor, senti raiva, senti angustias, senti a ironia e o sarcasmo batendo a minha porta apresentando-se como destino. Já senti uma cerveja descendo quadrada, já senti um embrulho no estomago; já vivi um dia como se fosse o último, assim como já desejei que o fosse. Fui um bebê chorão, uma criança insuportável e hiper-ativa; fui um adolescente rebelde, um jovem atormentado e, apesar dos pesares, fui, no meu interior, uma eterna pessoa feliz. E, como se tudo fosse obra de um acaso nada casual, aprendi o valor de um sorriso e de um olhar quando sinceros, de um coração quando determinado, de uma porta quando aberta – uma oportunidade entregue; aprendi que nada sou além do que escrevo e que nada escrevo além do que sou.


E, como Alexandre, o Grande: já almejei intensamente a conquista de todo um mundo; como Dante Alighieri: vivi a maior viagem da minha vida em um sonho louco. Como Don Quixote: fiz de meus objetivos, a razão de minha existência; e, como Sócrates, ao final de sua jornada: vi que muito pouco eu sei.


Destarte, fiz muito mais que uma crônica pode relatar, literal ou metaforicamente. Mas, como o maior dos bens a mim entregues, esse segue como o maior de meus agradecimentos. Que agora o tempo traga consigo a importância de um novo dia e a inutilidade de um dia perdido; que siga trazendo amigos e pessoas das mais incríveis, assim como tem o feito continuamente. E que, avaliando as possibilidades e competências, prossiga me ensinando como amar e ser amado por cada um dos amanheceres que entrarem pela janela.


Vinte já foram! E que venham os quarenta!