sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Calado


Bendito aquele que esticou a corda e soprou o vazio e, da audácia, fez a música. Sento-me na calçada, com a viola ao colo e deixo meus dedos deslizarem por dedilhados nada precisos – desafinados para os que não convivem da mesma sintonia que eu; para a maioria. Distante, o assovio preenche as fissuras deixadas pelos sorrisos parciais que ouço nascerem – e morrerem – da estaca da mediocridade e/ou da sala de estar. A televisão está ligada e faz minha música inaudível.

Ninguém investe seu tempo em minhas notas, talvez, possivelmente, porque a maioria não acompanhe o tom melódico e filosófico das poesias que deixo o silêncio cantar. “Vamos embora! Ele não cantará nada e está quase na hora da novela.” Ah, é claro, como eu fui tolo; eu havia esquecido: o homem tende a verbalizar todos seus pensamentos e, por isso, muitas vezes, ouço-o recitar suas paixões, mas há muito não vejo um lar erguido pela arquitetura do amor. São tijolos sobre tijolos, areia, água e cimento. E estes, o tempo se encarregará de corroer, aos poucos, até não sobrar mais nada, além de ruínas. Eis a lei de toda a razão humana; eis a bíblia dos levianos.

Aprendi com o poeta que, outrora, disse – ou cantou: “Aos dois anos, o homem aprende a falar. E muitos morrem sem aprender a ouvir.”

O silêncio, o mais belo e tocante dos acordes que aprendi a dedilhar, é constante e propositalmente quebrado. É temido. É nesta ausência de dizeres que escrevi, portanto, em mim, como uma página em branco e como uma noite de sono, absolutamente nada. Tornou-se, esta, uma poesia tão bela e limpa, sem qualquer assassinato que a razão pudesse protagonizar, que decidi dar-lhe um título – chamei-lhe de “Alma”.

Cantei os últimos versos que o silêncio me orquestrou. A caixinha de doação está vazia, desprezando a estranha mistura de concreto e poeira que os sapatos aproximaram com chutes, e não há nada para que eu possa partilhar o pão posteriormente, em casa. Enquanto o sino do campanário anuncia o atraso de todos e intensifica o trabalho dos animaizinhos humanos, fugindo da sombra e correndo atrás do próprio rabo.

Despeço-me, agradecendo pelo nada que me foi oferecido, mas muito diferente do nada que lhes presenteei. Afinal, não ganhei nenhum sorriso ao dia de hoje, um olhar periférico, sequer.

Despeço-me, no mesmo silêncio que cheguei. Quem sabe, ainda ignorado. Estranha humanidade, hein? Parecem não recordarem que seus maiores ídolos, além do homem no qual oram, hoje, compartilham do mesmo silêncio que eu.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Meu Sonho Mais Lindo


Deixa-me!, mas só se for para deixar-me ficar ao seu lado. Esqueça-me!, mas só se for para recordar-me, novamente. Mata-me!, mas que seja, aos poucos, tranqüila e silenciosamente, na devastadora aérea de nosso amor.

Deixe que o tempo passe; que as passagens sejam pergaminhos de nossa história; que novos contos sejam escritos todos os dias. Deixe que os dias falem por si sós, tornando-se únicos; que sejamos únicos, e amantes, e sinceros.

Deixe que sejamos apenas isso; e que isso seja amar. E que o amor seja tudo que, realmente, importa.

Stefany, em uma bela noite, há algum tempo, uma estrela caiu do céu, esbanjou sua majestade e banhou todo seu arredor com um sorriso fascinante; um olhar encantador; um abraço perfeito. Mas eu estava longe demais para que pudesse viver dessa safira; eu estava – e me fazia – andarilho por um bom tempo em pés cansados e um deserto escaldante.

Quando surgiu você – a estrela se fez vida –, se fez Eva em um paraíso que sequer sabia existir em mim. E essa estrela hoje me fez homem. Eu sou, talvez, talvez, agora, então, a expressão viva do que simboliza amar alguém.

Stefany, abraça-me nesse pequeno espaço de tempo, faz o tempo parar; mantenha-se parada e deixa o mundo falar por nós dois. O destino vai tratar de manifestar seus desejos por si só, deixando-o correr sobre aprendizados, ao nosso lado, de todos os sentimentos que os sonhos humanos podem possibilitar e vai me permitir viver os mais lindos jardins.

E o bonsai vai ser cultivado, todos os dias, regular e religiosamente por meus carinhos. Dar-lhe-ei todos os beijos que carregar comigo, mesmo que eles sejam só seus e eu não possa lhe entregar. Até o dia de seu retorno, quando o mundo tornar aos nosso aconchego e a noite cair, breve e absoluta, trilhando em melodias limpas e simétricas, o amor que nos tomará de vida e, posteriormente, nos deixará confortáveis ao pegarmos no sono, colados como um.

Assim, então, além do infinito eu vou voar. Desejarei a eternidade e o infinito; terei você. Serei o homem mais pleno em harmonia que a simetria dos astros puderem definir.

Serei eu. Essa junção de felicidade em resposta ao seu sorriso. De segurança ao conforto de teu colo. Aos passos rabiscados e reescritos de minha musa inspiradora.

Adormecido ao saber que te tenho. Despertado em ciência que te amo.

sábado, 7 de maio de 2011

Já que eu fui teu herói; teu bandido.


Bom dia, minha mãe! Hoje, eu parei por alguns instantes. Não porque havia um sinal vermelho, ou um muro negro; mas porque havia uma página em branco. Hoje, eu percebi, incrédulo: abismo; que injúria! É o seu dia, mas o maior presente, sempre foi meu.

Hoje, mãe, eu tenho segredos para relevar: eu sinto muito, mas aquelas minhas economias; aquelas tão esperadas, que lhe enchiam de orgulho e lhe fazia espalhar para todos os visinhos, eu gastei tudo em bala. Eu nunca fui o craque do time e nem o protagonista das peças de teatro; só para você.

Mesmo assim, você foi meu mundo real e minha fantasia; foi meu grilo falante, o meu gênio da lâmpada e minha princesa encantada. E, do manifesto de nosso cotidiano, silencioso e preciso como um caçador, eu sorvi em liberdade do impulso de estrelar momentos extraordinários, derrotei dragões e salvei reinados. Fui o maior conquistador do mundo; só para você.

Seus defeitos, mãe, foram inspirações para minhas obras, rabiscadas e reescritas e, mesmo que eu jamais pudesse admitir, eu agi às margens de suas palavras, namorando seus sermões e apaixonando-me, louco e de inocência franca, pelas histórias que me contava para dormir. Ainda lembro-me de Ali-Babá e um ladrão, dois ladrões, três ladrões,... Até que eu adormecia, mesmo que a tormenta de meus pensamentos me tomasse, naquele momento; mesmo que os amores não resolvidos, notas ruins e machucados expostos estivessem no estopim de sua ardência, eu ficava tranqüilo. O meu maior guardião estava ao meu lado.

Você, mãe, é culpada pelo meu gênio forte e interesse pela arte; sempre soube do meu desejo por compactar simetricamente meus acordes, entrando em acordo, antes que o tempo me acorde. Acontece que não há protagonistas; não há história sequer, se eu for rever os versos de mim sem você. E, por mais que a melodia siga encantando o compasso de corações entregues e eu desejar todas as rosas do mundo, eu ainda sou... Só para você.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Paire


Há de seguir. Voar livre; alto, como se nada mais tivesse importância alguma. Porque, se não fosse o peso das asas lavadas pelas pesadas sinfonias que as lágrimas e sorrisos deixaram, talvez Ícaro jamais tivesse caído. O tempo que o procedeu e as deixas que o partilharam o pão e o cálice o entorpeceram; deixaram-no à beira da queda a própria existência, como se tratasse do topo do mundo e dos vales da onda, a face real frente ao espelho.

E assim, as palavras seguem, como notas dramáticas de um coral de sopros. A áurea não corroe mais as paredes do cativeiro que seu lar fronteirava e ele aprendeu, como o galante noviço que sempre foi e será, a justificar as suas utopias em vôos fadigantes. A exaustão dava forma à sua liberdade pois, por mais que as fronteiras de seus mestres o rendessem ao extremo do próprio corpo, ele tinha muito ainda que explorar. E assim o faria.

Correu pelos corredores que emanavam seus pesadelos ao estopim da abstração; mais perigosos e amedrontadores do que jamais o foram e seriam, se não fossem suas barreiras. E, de olhos bem abertos, ele se desfez da bússola que carregava ao colo como um filho e faceou a tormenta. Agora, por mais errônea que estivesse a senda que trilhava, a macieira ainda daria frutos. O tempo seguia correndo seu rumo e ele seguia àlgum lugar.

Não tinha para onde ir, mas, ainda assim, iria. Mesmo que não tivesse nada ou ninguém a esperá-lo; mesmo que fosse surpreendido pelas palmas avassaladoras ou pelo silêncio absoluto. Ainda que perdesse as causas e conseqüências e rendesse o corpo, mas os propósitos e a alma seguiriam intactos; o fio de seda a cativar seu sopro.

Destarte, em convite à vida como primeiro plano e protagonista, o espetáculo há de prosseguir. E, ao apogeu de sua melodia, ele pode pairar seu vôo e deixar o vento aromatizar o desfecho de seus ideais. Trata-se de um homem que voa alto; um anjo que corre livre. Trata-se de um propósito de imediatismo; não há tempo à rendição. A frustração é um risco, a espera é uma inquietude. Trata-se de uma realidade de aqui e agora.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ella



É inicio da noite de um sábado em que os termômetros não anunciam mais que dez graus centigrados na serra, à paisagem de um luar divino e grandioso se entregando aos olhos dos desiguais, mas em plena igualdade, então, e, em decorrência, a chegada da noiva à Igreja São Pelegrino com seu olhar manhoso; predisposto à continência da maquiagem e suas vestes justas e brancas para expor contraste à sua pele morena de movimentos simétricos e contidos, mantendo-se ao trono de sua majestade espiritual. É essa a paisagem, em abstração e/ou materialidade, de minha nova obra que me soa, ingenuamente, como uma suave poesia. Sem uma melodia nítida, tampouco uma musa inspiradora em quadro concreto para espelhar. Apenas a sedução natural e simplória que argumenta metáforas ao transmutar a poluição mundana na maestria de acordes abençoando um coração que, outrora, há não muito, servia-me de angustia e perdição.

Foi de meu agrado e surpresa quando o silêncio trouxe, com bom grado e felicidade, o anexo de pensar-te e, a suprir deste vício, assassinar mais uma das páginas em branco. Decidi dedicar meus primeiros ainda medíocres versos a ti.

Não sei seu paradeiro, mas é dessa incerteza que quero seguir, constante e absoluto, sem hesitar por um instante, sequer, à tua procura. Não me intimida, sobre ameaça alguma do destino, que as trilhas sejam-me árduas; espero que, realmente, assim o seja. Pois, quando compartilhar do foco de meu olhar à imensidão de teu sorriso – este já, então, indispensável, quero que o luar seja, igualmente, tão esplendido e onipresente quando o de hoje. Ele será, assim, a testemunha mais sincera a compartilhar dos laços que entregaremos, ao toque da união do que há de melhor em nós, para a arte dos escribas ser esculpida às novas muitas páginas que o tempo nos presenteará.

Viverei, agora, da poesia. Pois, afinal, tudo que, na vida, eu quero, é um balanço no parque e uma obra de arte; um livro e um café. Nada mais, então, tão belo, sincero e pulsante que o sorriso de uma musa inspiradora, aquela que, ainda, não materializei à minha entrega.

Gozo do gosto amargo gole do café, do vento no balanço, das lágrimas frente à pintura, da lua tão esplêndida e grandiosa tomando o céu – junto ao véu da noiva, e, à última página do livro, escrevo-te uma carta de amor que, talvez, jamais terei coragem de entregar. Mas que, ainda assim, salientarei a todas as estrelas, por todas minhas noites em claro, que foi a ti que escrevi.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ao Teatro De Minha Existência


Tornei ao teatro das muitas máscaras e poucas faces. Segui, desprezando as obstruções do advento, até o palco do qual coabitei os avessos e transversos de minha existência, cuja mesma fui coadjuvante – quase subalterno – e nunca protagonista. Ao mesmo que entreguei meu espírito aos atos e meu punho aos legados, mas, por ironia, ou coincidência, ou destino, não havia mais ninguém para presenciar.

As poltronas, mesmas que, um dia, foram trono para a salva avassaladora de palmas, cediam o tecido aos vermes e já cheiravam a mofo. Tais quais as cortinas que, ao foco dos spots, deixavam transparecer os sorrisos e lágrimas – gargalhadas e prantos – de um homem, não de um personagem; elas estavam encharcadas pelo galope de um turbilhão de injurias sem precedentes; sem pretensões. Mas, ainda assim, não questionei meus passos e subi ao palco, mais uma vez, para interpretar a mim mesmo, ainda que não houvesse sequer um companheiro presente. O silêncio seria minha testemunha e tomaria frente nos aplausos ensurdecedores. Daí que, então, um afável assombro:

Todos; cada um deles. Intactos.

Aos poucos, foram saindo da segurança solitária e abafada das coxias e se apresentando; alguns, tímidos com minha presença inusitada e, outros, incrédulos com meu regresso turvo. Pois que, então, dentre eles, o personagem de um coração partido que subsisti às longas primaveras pretéritas.

Em passos cansados e sob o desdouro de um olhar, ele procedeu à minha presença. Tocou-me o ombro, apertando-o sem muita força, mas abalando a melodia daquela serenata com um sorriso. E eu o vi, pela primeira de tantas outras vezes, ébrio da formosura genuína, ao casco de um velho bem trabalhado pelo ponteiro do relógio e arquitetado sobre incorpóreos alicerces de sabedoria. E eu devolvi o sorriso ao qual me presenteou.

Ele sentou-se ao meu lado ao dito:

- É bom revê-lo.

Deixei a ausência de qualquer ruído tomar forma de meu revide. Eu estava, tão pleno e sincero, grato por sorver, novamente, da comparência daquele. Destarte, foi do mesmo sossego que a ternura se fez alma; o trono que se erguia nas obras de arte daquele palco sem atores e sem personagens. E, destes, avistei a magnificência das paredes já corroias e das taboas apodrecidas do palco, ao exato mesmo instante que deslumbrei o meu personagem em um contemplo acanhado e ingênuo do outro lado do espelho; vetusto como só nós conseguiríamos protagonizar.

- Tudo continua lindo, não é?

E ele sorriu, devolvendo-me aquele que o presenteava.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sem precedentes; Sem pretensões


Deixe-me passar, cidadão.
Meu objetivo não perpassa ruína alguma
Eu não sou nenhum poeta de amores platônicos
Nem um hipócrita falando mal do meu país.

Não quero derrubar nenhuma força política
Tampouco questionar dogmas e credos.
Não quero mais do que entrar
E entorpecer-me de minha própria existência;
Deixar a incoerência falar por mim.

Não sou um ativista revolucionário
Nem um visionário com um livro e uma cruz;
Não acredito que o universo tenha uma lei concreta
Nem que todos irão pagar pelos erros que cometeram.

Não tenho medo dos mortos
Temo quem é vivo e, ainda,insano
E não vou mascarar minha ignorância com discursos emotivos
Quero apenas adentrar afesta e dançar conforme a dança.

Quem eu sou?

Sou o comodismo em si
E a realidade de uma versão patética de sonho.

Sou aquele que não ama
Que não crê
E que não chora.

Eu sou prole,
Um dia, quem sabe, progenitor.
De um sistema falido, mas que eu,
Assim como você e como todos,
Não tem interesse algum em mudar.

Afinal, por mais alto que voem minhas palavras,
Eu ainda não saí do sofá.

Portanto, cidadão,
Deixe-me passar.
Quero somente um café,
Uma conversa despretensiosa
E um par de pernas abertas ao final dessa madrugada.

Tenha uma boa noite.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tempo


O tempo beberá de minha juventude, tomando-a de mim. É oriundo de nossa entidade; não há forma de repelir.

Por incontáveis amanheceres, me perderei – permitindo-me perder – no travessão entre as palavras e a melodia. O mundo será só meu, apesar de o mesmo resultar em um possível egoísta; um incapaz de compartilhar as poesias que escreverei quando as batidas sólidas já não couberem mais em mim. Mas o farei. Sem arrependimento algum de tê-lo feito. Acredito que, mesmo que for guiado a assassinar muitas das notas e acordes, versos e estrofes, ainda assim me servirá para compreender a abstração dos relógios derretidos e a harmonia entre o preto e branco e o multicolor.

Certamente, eu amarei demais, mesmo que o amor verdadeiro jamais faça bater o coração; que jamais bata à porta. Não é um desanimo que, propriamente, me alague a face. Aprendi que o amor sempre foi o agente condutor entre o instinto e a razão – Dionísio e Apollo; sempre guiou a humanidade à evolução, tanto quanto à loucura. Mas é visível que não há, a meu ver, qualquer discordância entre ambos. Havendo, portanto, uma ação direta, ou não, do sentimento alfa em minha vida, serei grato por coexistir sobre a mesma civilização habitacional dessa áurea tão hábil à sedução.

Então, quando o tempo me sorver dos últimos fluidos orgânicos e gozar de minha impotência, serei desolado – apesar de grato – às paginas que, um dia, estavam em branco, deixando os pensamentos do poeta e do leitor voarem livres por seu universo subjetivo; seus maiores sonhos refogados, impossibilitando fronteiras. E, todavia, dotado de uma mente onde, outrora, palavras manavam e estoiravam e, agora, como pleno êxito, alegam páginas amareladas e abstratas à fachada, serei lúcido ao embriagar-me dessa insanidade.

Em tempo, calei meus pensamentos todas as vezes que a inquietude me direcionou a uma certeza. Afinal, este seria o maior desacato às minhas proles rabiscadas e reescritas. A certeza é uma dádiva oriunda e cabível apenas à escória; aos leitos à arte. E sempre fora um equívoco sem precedentes titular a grandiosidade da certeza frente ao questionamento. Por essa ignorância, e apesar disso, vi o mundo levar ao comando tolos dotados de certezas e excluir gênios vagando em desassossegos por seus questionamentos. Um desacerto sem tamanho.

Enfim, por destarte natural, serei vítima das causas e culpado pelas consequências. Jamais terei o tempo que desejo para viver dos meus amigos; tanto quanto, um dia, não terei mais amigos para usufruir o meu tempo. E serei a ternura e o desprazer de meus mais queridos sonhos; educando meus instintos à maior proximidade necessária da perfeição que, ao ultimato dos dias, eu puder usufruir. E terei ganho meu tempo se conseguir relevar os muitos universos que me cruzam estrada e se, acima de tudo, afinal de contas, conseguir, por uma batalha épica ou pura coincidência, ser o protagonista de meus romances.

terça-feira, 1 de março de 2011

Seu Sorriso Explícito À Minha Mente Inquieta

Abraço de bom grado um término de tarde em um silêncio breve e despretensioso aos redemoinhos de estrelas diante as vitrines. E à proeza da mais nobre casualidade poética, como a única consegue estrelar. Destarte, meus olhos afogaram-me aos seus, por um breve comercial de existência. Pois, meus caros, a tormenta de meus exércitos em monólogos estava a vestir fardas quando ela presenteou os últimos acordes do dia, tal qual um ás abotoado ao paletó, com um sorriso.

Entorpecido a profetizar majestade tamanha às tábuas dos porões divinos de minha subjetividade, mas ilhado à camisa de força de meus alicerces sociais, estagnei ao verso impróprio; decorando de futilidades todo o alheio à dama de ferro que me aprisionava, para banalizar, à plena insanidade, seu feitiço. Dominei a essência, retocando protocolos básicos e diplomáticos de autocontrole para sustento, ao tom que permaneci à sombra das coxias.

Mas sua presença persistia. Seu sorriso, planteando de loucura a palidez de minha face desnorteada, tão intensa como uma tempestade de areia às miragens do deserto árido e fulminante.

Nada a ser feito; nada casual. Fiz de mim o culpado de meu próprio arsenal de contratos, trazendo à tona a vulnerabilidade que o vislumbre me impregnou. Pois, então, a lucidez de seu sorriso se fez o espelho à insanidade de meus pensamentos. Tarde demais.

Você despistava, sobre sorriso constante, as margens de minha rendição. Seguiria, assim, por nada salientar, em silêncio de incontáveis serenatas ao deixar-te partir. E você, então, a levar as cordas de meu dedilhado enquanto eu, em êxodo prologado de sua apresentação, levito minhas fragmentadas memórias à base do jasmim de papel laminado que fiz esperando o dia tornar ao trono em seu apogeu de incertezas e infinidades. Talvez, consigo, traga o sorriso que sorvi; que se despediu deixando um rastro de um suave perfume, somente, mas em mim se fez parasita ao som ambiente de uma inquietude mental.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Amordaçado


Acordo e, por mais que não queira, designo-me puro; a eterna mutação de minha pele. E choro, como quem jamais deveria chorar, pois não amo, não sofro e não creio, apenas questiono. E, desde questionamento, dou a luz ao paradoxo de minha existência. Como sendo, este, a vida e a carne em sua mais explícita prostituição. Sendo assim, sou vislumbre de uma incerteza; deste cálice eu nasci e por este pão quero morrer.
Fui castigado inúmeras vezes ao dar coerência e alicerces ao que o profeta tabulou como falho; desprovido da razão. Mas pequei apenas ao sustentar – em meu estomago – a idéia de que algo, realmente, pudesse mudar. Sim, caro irmão de descendência nenhuma, eles atiraram-me pedras como se tivessem a face “sin-cera”. O debate seguia estrelado por idiotas.
Meu pecado foi a dúvida e meu castigo, a certeza.


Agora, nesse amanhecer; nesse dia em que a terra parou para fitar-me, o poeta está morto. E, dele, restou somente esse quarto vazio, um palhaço e uma puta. Que agora gozam em orgias às luzes apagadas para os próprios pais.
O quarto, cheio de rabiscos, como um ideal nunca pregado, assim como eu, apaga memórias enquanto deixa secar a tinta fresca. O “vende-se” torna-se o título e tudo o que restou desse romance profano sem protagonista algum.
O palhaço sorri, aos quatro cantos do mundo, tal qual eu fui e serei, pois sabe que é desse hábito que coabita sua realidade e é desse martírio que ele ergue o alimento, à última das chibatadas. Então, veste-se de mais um dia, como tantos o foram; participando de mais um baile a fantasias e pregando mais uma das tantas máscaras à cara para nunca mais tirar.
Já a puta, como este que vos escreve, retoca a maquiagem nos banheiros de cassino; já não transparece que, em casa, criança nenhuma acorda durante a noite; pois essa também se foi, aos braços do poeta. E, rende-se, por fim, como todos e por outros que restaram às incertezas, tendo a vida tão complexa quando um par de pernas abertas. Por isso, goze, querido! Goze!


Agora, então, ao último pé da torre, eu miro a um penhasco e um arranha-céu. Um homem está para se jogar do vigésimo andar.
Pula, logo, hipócrita!
E deixa a escória bater palmas tão constantes e escandalosas, mas fúteis como gritos no deserto. Quase tão real quanto o chão aos teus lábios, mas nem comparado à covardia de teu suicídio.


Portanto, deixe-me secar essa lágrima que me fugiu para encontrar, aqui fora, um real motivo para chorar e, então, tornar aos meus olhos, como um filho pródigo; um babaca. E, se o espetáculo já acabou, deixe-me seguir meu caminho e matar, um pouco mais, este poeta como eu.
Por fim, cala-te! E deixa-me dormir.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Masturbação

Pois que, então, cinco delinqüentes
Quatro altos raquíticos
E um baixinho anabolizado
Cercam o oprimido “cabeça achatada”;
O nordestino.

A agressão é tanta que o corpo se incha
O rosto torna-se irreconhecível até aos familiares;
Principalmente aos familiares.

Mórbidos, frios e precisos.

Não há misericórdia, apenas pressa
Uma presa indefesa.

Então, a vítima chora, sangra
E avista seus ditadores se afastarem
Lavando as mãos de seus pecados.

Volta para casa,
Ainda atordoado,
Ressaltando mais um dia de trabalho árduo.