domingo, 26 de agosto de 2012

Tormenta

       Eu me faço pedra, em meio à tanta vida.
O acorde segue pulsante; segue queimando a poesia.
Eu percebo, mesmo sem querer, os gritos que se escondem nestes silêncios.

É alta madrugada e, nos rostos inertes em sono, a inquitude ainda predomina.
Ainda que o travesseiro permita-lhes descansar, o quão essas mentes estão amedrontadas, entristecidas, amordaçadas e esquecidas?

Fecho meus olhos, também. Mas não para dormir. Quero, deveras, perceber o silêncio.
E, se não há ninguém neste espaço vazio, quem esta tomando este espaço?
Se não há voz, quem, então, está protagonizando este silêncio?
Quem está no deserto para afirmar que ele está deserto?

Eu me faço pedra
Porque, do crime, vivo o castigo;
Vivo a tormenta inquietante deste silêncio ensurdecedor.    

sábado, 25 de agosto de 2012

Amnésia


Nada mais importa. Afinal, eu sequer sei quem eu sou.
Acordei, esta manhã, sem ideia de que dia era; sem saber quem era aquele que me encarava (entristecido) pelo espelho. E, novamente, procedo desta tola filosofia - a mesma que devo proceder todas as manhãs.

Meus olhos tem o aspecto melacólico de muitos dias que eu não vivi;
Meu corpo esta tomado por marcas de batalhas que eu não travei;
E meus pensamentos seguem estagnados nos mesmos alicerces comprometidos de minha psique.


Do dia de ontem, eu me recordo. Talvez, tenha sido semana passada; ano passado. Eu não me lembro.
Eu era tolo; mas era livre.
E foi quando, ironicamente, parti em busca de conhecimento que o questionamento fez, de mim, o seu escravo.
Quem sabe, se eu tivesse aderido ao sistema e vestido uma face sincera e submissa, eu ainda portasse a dádiva que somente os tolos têm - o auto-conhecimento.


Amanhã, eu tornarei à estes mesmos versos, em uma nova folha em branco.
E repetirei cada uma delas palavras.

Pois nada mais importa. Afinal, eu sequer sei quem eu sou.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Calado


Bendito aquele que esticou a corda e soprou o vazio e, da audácia, fez a música. Sento-me na calçada, com a viola ao colo e deixo meus dedos deslizarem por dedilhados nada precisos – desafinados para os que não convivem da mesma sintonia que eu; para a maioria. Distante, o assovio preenche as fissuras deixadas pelos sorrisos parciais que ouço nascerem – e morrerem – da estaca da mediocridade e/ou da sala de estar. A televisão está ligada e faz minha música inaudível.

Ninguém investe seu tempo em minhas notas, talvez, possivelmente, porque a maioria não acompanhe o tom melódico e filosófico das poesias que deixo o silêncio cantar. “Vamos embora! Ele não cantará nada e está quase na hora da novela.” Ah, é claro, como eu fui tolo; eu havia esquecido: o homem tende a verbalizar todos seus pensamentos e, por isso, muitas vezes, ouço-o recitar suas paixões, mas há muito não vejo um lar erguido pela arquitetura do amor. São tijolos sobre tijolos, areia, água e cimento. E estes, o tempo se encarregará de corroer, aos poucos, até não sobrar mais nada, além de ruínas. Eis a lei de toda a razão humana; eis a bíblia dos levianos.

Aprendi com o poeta que, outrora, disse – ou cantou: “Aos dois anos, o homem aprende a falar. E muitos morrem sem aprender a ouvir.”

O silêncio, o mais belo e tocante dos acordes que aprendi a dedilhar, é constante e propositalmente quebrado. É temido. É nesta ausência de dizeres que escrevi, portanto, em mim, como uma página em branco e como uma noite de sono, absolutamente nada. Tornou-se, esta, uma poesia tão bela e limpa, sem qualquer assassinato que a razão pudesse protagonizar, que decidi dar-lhe um título – chamei-lhe de “Alma”.

Cantei os últimos versos que o silêncio me orquestrou. A caixinha de doação está vazia, desprezando a estranha mistura de concreto e poeira que os sapatos aproximaram com chutes, e não há nada para que eu possa partilhar o pão posteriormente, em casa. Enquanto o sino do campanário anuncia o atraso de todos e intensifica o trabalho dos animaizinhos humanos, fugindo da sombra e correndo atrás do próprio rabo.

Despeço-me, agradecendo pelo nada que me foi oferecido, mas muito diferente do nada que lhes presenteei. Afinal, não ganhei nenhum sorriso ao dia de hoje, um olhar periférico, sequer.

Despeço-me, no mesmo silêncio que cheguei. Quem sabe, ainda ignorado. Estranha humanidade, hein? Parecem não recordarem que seus maiores ídolos, além do homem no qual oram, hoje, compartilham do mesmo silêncio que eu.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Meu Sonho Mais Lindo


Deixa-me!, mas só se for para deixar-me ficar ao seu lado. Esqueça-me!, mas só se for para recordar-me, novamente. Mata-me!, mas que seja, aos poucos, tranqüila e silenciosamente, na devastadora aérea de nosso amor.

Deixe que o tempo passe; que as passagens sejam pergaminhos de nossa história; que novos contos sejam escritos todos os dias. Deixe que os dias falem por si sós, tornando-se únicos; que sejamos únicos, e amantes, e sinceros.

Deixe que sejamos apenas isso; e que isso seja amar. E que o amor seja tudo que, realmente, importa.

Stefany, em uma bela noite, há algum tempo, uma estrela caiu do céu, esbanjou sua majestade e banhou todo seu arredor com um sorriso fascinante; um olhar encantador; um abraço perfeito. Mas eu estava longe demais para que pudesse viver dessa safira; eu estava – e me fazia – andarilho por um bom tempo em pés cansados e um deserto escaldante.

Quando surgiu você – a estrela se fez vida –, se fez Eva em um paraíso que sequer sabia existir em mim. E essa estrela hoje me fez homem. Eu sou, talvez, talvez, agora, então, a expressão viva do que simboliza amar alguém.

Stefany, abraça-me nesse pequeno espaço de tempo, faz o tempo parar; mantenha-se parada e deixa o mundo falar por nós dois. O destino vai tratar de manifestar seus desejos por si só, deixando-o correr sobre aprendizados, ao nosso lado, de todos os sentimentos que os sonhos humanos podem possibilitar e vai me permitir viver os mais lindos jardins.

E o bonsai vai ser cultivado, todos os dias, regular e religiosamente por meus carinhos. Dar-lhe-ei todos os beijos que carregar comigo, mesmo que eles sejam só seus e eu não possa lhe entregar. Até o dia de seu retorno, quando o mundo tornar aos nosso aconchego e a noite cair, breve e absoluta, trilhando em melodias limpas e simétricas, o amor que nos tomará de vida e, posteriormente, nos deixará confortáveis ao pegarmos no sono, colados como um.

Assim, então, além do infinito eu vou voar. Desejarei a eternidade e o infinito; terei você. Serei o homem mais pleno em harmonia que a simetria dos astros puderem definir.

Serei eu. Essa junção de felicidade em resposta ao seu sorriso. De segurança ao conforto de teu colo. Aos passos rabiscados e reescritos de minha musa inspiradora.

Adormecido ao saber que te tenho. Despertado em ciência que te amo.

sábado, 7 de maio de 2011

Já que eu fui teu herói; teu bandido.


Bom dia, minha mãe! Hoje, eu parei por alguns instantes. Não porque havia um sinal vermelho, ou um muro negro; mas porque havia uma página em branco. Hoje, eu percebi, incrédulo: abismo; que injúria! É o seu dia, mas o maior presente, sempre foi meu.

Hoje, mãe, eu tenho segredos para relevar: eu sinto muito, mas aquelas minhas economias; aquelas tão esperadas, que lhe enchiam de orgulho e lhe fazia espalhar para todos os visinhos, eu gastei tudo em bala. Eu nunca fui o craque do time e nem o protagonista das peças de teatro; só para você.

Mesmo assim, você foi meu mundo real e minha fantasia; foi meu grilo falante, o meu gênio da lâmpada e minha princesa encantada. E, do manifesto de nosso cotidiano, silencioso e preciso como um caçador, eu sorvi em liberdade do impulso de estrelar momentos extraordinários, derrotei dragões e salvei reinados. Fui o maior conquistador do mundo; só para você.

Seus defeitos, mãe, foram inspirações para minhas obras, rabiscadas e reescritas e, mesmo que eu jamais pudesse admitir, eu agi às margens de suas palavras, namorando seus sermões e apaixonando-me, louco e de inocência franca, pelas histórias que me contava para dormir. Ainda lembro-me de Ali-Babá e um ladrão, dois ladrões, três ladrões,... Até que eu adormecia, mesmo que a tormenta de meus pensamentos me tomasse, naquele momento; mesmo que os amores não resolvidos, notas ruins e machucados expostos estivessem no estopim de sua ardência, eu ficava tranqüilo. O meu maior guardião estava ao meu lado.

Você, mãe, é culpada pelo meu gênio forte e interesse pela arte; sempre soube do meu desejo por compactar simetricamente meus acordes, entrando em acordo, antes que o tempo me acorde. Acontece que não há protagonistas; não há história sequer, se eu for rever os versos de mim sem você. E, por mais que a melodia siga encantando o compasso de corações entregues e eu desejar todas as rosas do mundo, eu ainda sou... Só para você.