
Bendito aquele que esticou a corda e soprou o vazio e, da audácia, fez a música. Sento-me na calçada, com a viola ao colo e deixo meus dedos deslizarem por dedilhados nada precisos – desafinados para os que não convivem da mesma sintonia que eu; para a maioria. Distante, o assovio preenche as fissuras deixadas pelos sorrisos parciais que ouço nascerem – e morrerem – da estaca da mediocridade e/ou da sala de estar. A televisão está ligada e faz minha música inaudível.
Ninguém investe seu tempo em minhas notas, talvez, possivelmente, porque a maioria não acompanhe o tom melódico e filosófico das poesias que deixo o silêncio cantar. “Vamos embora! Ele não cantará nada e está quase na hora da novela.” Ah, é claro, como eu fui tolo; eu havia esquecido: o homem tende a verbalizar todos seus pensamentos e, por isso, muitas vezes, ouço-o recitar suas paixões, mas há muito não vejo um lar erguido pela arquitetura do amor. São tijolos sobre tijolos, areia, água e cimento. E estes, o tempo se encarregará de corroer, aos poucos, até não sobrar mais nada, além de ruínas. Eis a lei de toda a razão humana; eis a bíblia dos levianos.
Aprendi com o poeta que, outrora, disse – ou cantou: “Aos dois anos, o homem aprende a falar. E muitos morrem sem aprender a ouvir.”
O silêncio, o mais belo e tocante dos acordes que aprendi a dedilhar, é constante e propositalmente quebrado. É temido. É nesta ausência de dizeres que escrevi, portanto, em mim, como uma página em branco e como uma noite de sono, absolutamente nada. Tornou-se, esta, uma poesia tão bela e limpa, sem qualquer assassinato que a razão pudesse protagonizar, que decidi dar-lhe um título – chamei-lhe de “Alma”.
Cantei os últimos versos que o silêncio me orquestrou. A caixinha de doação está vazia, desprezando a estranha mistura de concreto e poeira que os sapatos aproximaram com chutes, e não há nada para que eu possa partilhar o pão posteriormente, em casa. Enquanto o sino do campanário anuncia o atraso de todos e intensifica o trabalho dos animaizinhos humanos, fugindo da sombra e correndo atrás do próprio rabo.
Despeço-me, agradecendo pelo nada que me foi oferecido, mas muito diferente do nada que lhes presenteei. Afinal, não ganhei nenhum sorriso ao dia de hoje, um olhar periférico, sequer.
Despeço-me, no mesmo silêncio que cheguei. Quem sabe, ainda ignorado. Estranha humanidade, hein? Parecem não recordarem que seus maiores ídolos, além do homem no qual oram, hoje, compartilham do mesmo silêncio que eu.
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