quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Agentes da Madrugada

Então, o silêncio. Preciso e absoluto, agindo com uma maestria cirúrgica. Eis o instante em que os bêbados tornam-se poetas, uivos apresentam-se como melodias e estrelas assistem ao teatro da existência como uma platéia atenta.

Não entendo exatamente o motivo, creio que seja porque há ciência de que a paz e a tranqüilidade contínua persistirão até o próximo amanhecer. Sim. Provavelmente a razão pela qual a madrugada tanto me encanta seja o breve prazer de desfrutar da solidão sem qualquer receio de estar, realmente, só. Apenas vivendo o mesmo mundo no qual meus entes queridos repousam em seus travesseiros, envoltos em seus cobertores nesse inverno que nunca nos abandona em Caxias do Sul. Mas, enfim, não sei o que seria de cada fragmento de meu meio humano e racional caso não fosse a honra do luar me presenteando com essa horas de autoconhecimento; minha bela madrugada.

Vejamos o mundo:

As ruas vazias; o vento soprando tranqüilo, suavizando sua peregrinação e, acima de tudo, assinatura real desse agente tentador, o nada. O silêncio astuto valorizando o complexo e intacto nada ainda esperando uma tradução coerente aos murros da racionalidade humana.

Mas a madrugada é simples; mecanicamente estável, apesar de todos seus encantos; não há qualquer mistério rondando-a. Ela apenas existe, apesar de muitos soldados do sol se recusar a perceber, mas, ainda assim, eles sabem de sua existência. Todos sabem. Sabem que na madrugada todas as emoções são intensificadas – o afeto e a ira; o desejo e a paixão, como o ódio e o rancor,... Todos vivem entrelaçados em suas particularidades, correndo livres pelas ruas desertas que a madrugada permitir. Mas, é nesse percurso discreto de nosso cotidiano que essas emoções, neuronais ou cardiovasculares, realmente apresentam a sua face e esplendor.

As lágrimas de tristeza proporcionadas por um coração partido e os sorrisos escancarados pela embriagues dos bares da vida; os autoconhecimentos em plena solidão e as orgias brindando o término de uma noite. Cada universo em si, não mais reprimidos pela ditadura racional da exposição solar, mas uma dama nua nas proximidades de onde os olhos alcançam, mesmo fechados. Talvez, então, os sonhos não sejam frutos de nosso descanso mental em posição horizontal sobre colchões de penas de ganso, mas um presente natural que a madrugada entrega aos ares para transpirarmos e, dentro de nossas crenças e habilidades, vivermos intensamente cada pétala da rosa que caí ao chão gelado, sem assassinar a bela ou a fera que vive dentro de cada um de nós.

E é nessa madrugada, minha agente secreta, natural e encantadora, que o mais esperto anjo toma as rédeas; é nesse instante simplório e desvirtuado de nossa existência que a humanidade de nossas mentes acaba por libertar o carrasco de nossas fobias e o salvador de nosso crescimento. O destino.

Tão destemido quanto o arqueiro verde da floresta de Sherwood, o destino solta gargalhadas frente às nossas fronteiras – nossas restrições quanto ao nosso próprio mundo. Ele sabe que é temido e, por isso, em célebres e épicas aventuras e travessuras para impressionar a lua que se preocupa somente em refletir o brilho do sol, ele é a ironia e a perversão em pessoa: encanta-nos com uma tentação das sereias tocando suas harpas abençoadas e cantando aos quatro ventos aos marinheiros da madrugada e, então, ao obter nossa posse e guarda em suas mãos, nos entrega de mãos atadas a mais cruel de nossas faces. Nós mesmos.

Faz com que o espelho revele um olhar perdido e um sorriso abafado. Trás a chuva em preto e branco aos reflexos de nossas almas. E, por isso, o destino carrega a fama simplória e correta, mas injustificável, de vilão. É por mostrar o homem como lobo do próprio homem em uma batalha de olho por olho e dente por dente que é temido e, até, odiado. Mas, ainda assim, ele sorri. Ele sabe que, amanhã, quando o sol tomar conta de um céu não mais estrelado, cada uma de suas vítimas secará suas lágrimas e saberá o caminho certo a seguir. Pois, assim como foram feridas, souberam se levantar, posicionar espada e escuro em proteção ao elmo de suas ideologias e, apesar de não compreenderem, foram doutrinadas aos ensinamentos dos dois maiores mestres pelos palcos de espetáculos que titulamos de vida. Permitiram-se adquirir conhecimento e armas para seguir em frente com a precisão do destino e o mistério de si mesmos.

E esse todo acompanhado pelos ares que ainda seguiam firmes seus rumos, dentre sentimentos intensificados e metáforas perdidas nos cantos perdidos, esperando pelos poetas de barro e soldadinhos de chumbo a resgatá-los. E essa integra, em sua exatidão, jogada no tabuleiro que a madrugada oferece ao jogo.

Agora, provavelmente, enquanto ouço os pássaros à minha janela que já acusa os primeiros raios de sol, terei que entregar-me ao descanso, não sou de aço e ainda sou residente carnal da humanidade; prisioneiro de um corpo finito. Mas, por fim, mais madrugadas me esperam. Tão belas, silenciosas e magníficas como a compreensão de cada emoção pela qual ontem chorei e hoje sorri. E, assim, como um dever sem fronteiras; um silêncio preciso e absoluto, agindo com uma maestria plenamente humana, entrego-me ao sono. Bom dia, vasto sol. Boa noite, minha madrugada.

domingo, 7 de novembro de 2010

01/01/0001


Nasceu o dia, eu nasci. Agora, sou uma criança, um ser vivo; tenho poucos instantes de existência, mas me titulo “alguém”. Ou, infelizmente, não.


Fui tirado de um ambiente confortável e acolhedor onde tinha acesso contínuo a tudo que precisava e que poderia desejar e, logo de largada, sou recebido por um troglodita com uma palma certeira em minhas nádegas sensíveis. Assim, após confirmarem o meu pranto iminente e desesperado, sou roubado da presença de minha genitora; meu único porto seguro conhecido.


Transferido, parei em um ambiente carcerário no qual me algemaram uma das mãos à uma tarja com símbolos desconhecidos transcritos em continuidade e que, creio eu, poderiam até ter algum significado barato. Abusaram de mim com múltiplas mãos biônicas e inteligentes. Sons estrondosos em meus ouvidos, metais gelados em meus pés e mãos, agulhas, luzes fortes,...

Senhor! Eu estava em um universo só meu! Escuro, quente, acolhedor, silencioso. Será que é possível respeitar um pouco o meu espaço e minha individualidade?! Afinal, esse é o meu corpo, camarada!


Enfim, estava cansado, cheguei a minha fatiga natural. Entrei em estado de sono.
Ao retornar ao meu estado de vigília, surpreendentemente, tudo ficou ainda mais confuso. Vomitaram sobre mim datas, nomes e títulos dos mais complexos. Já me deram um nome, um apelido, acharam em mim qualidades e defeitos – os adjetivos dos mais variáveis. Eu sou filho, sou irmão, sou afilhado, eu sou Caio, sou Pablo, sou João. Eu sou Viviane, sou Caroline, sou Amanda. E, da mesma forma, eu tenho um número de contato, um Registro Geral, um CPF, uma data de nascimento, um cadastro de existência.


E essas letras? E esses números? O que eu faço com tudo isso?! Estão horrorizando os primórdios de minha história com uma velhice intelectual mais repugnante que as “papinhas” de banana e pão com leite que me atiram garganta abaixo todos os dias.



Oi! Eu não sou um recém nascido e estes não e tratam de meus reais problemas, mas, por outro lado, este é o mundo em que vivemos. Todos os instantes, somos titulados com rótulos secos, como se nada mais fossemos que um complexo de números, de letras. Por isso, ditei um texto construído sobre uma metáfora pela qual já se fez concreta a todos. Dessa forma, cada um poderá assimilar esse “primeiro dia de vida” da maneira que bem entender, sem a frieza dos rótulos; sem conceitos pré-estabelecidos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Chegando Aos Meus Vinte




Sim! Cá estou eu! Quem diria, hein? Completando míseras duas décadas de vida e já tomado por histórias atípicas e épicas que, deveras emocionado, contarei aos meus netos futuramente – se o tempo assim me possibilitar. Mas, parece que foi ontem que seguia fazendo artes das mais variáveis, não aceitas e jamais compreendidas pelos arredores da minha pequena cidade natal; Maravilha – Santa Catarina. É, mas o tempo passou e acordo, então, vendo que já não sou mais o mesmo de ontem e, acima de tudo, percebendo o valor que essa mudança carrega consigo.


Primeiramente, vi que, como toda e qualquer pessoa, eu cresci. Assim como errei e cometi pecados pelos quais não guardo orgulho algum, mas, ao mesmo tempo, entreguei-me ao máximo tentando, sobre todas as variáveis e obstáculos, ser eu mesmo. E esse foi meu maior presente. Sim, creio que, devido àlgumas escolhas, perdi pessoas e figuras importantes nesse metafórico caminho que tracei, até o então. Todavia, hoje, vejo que foi por um bom propósito.


Já passei noites em claro, já passei tardes inteiras dormindo. Já fui o sorteado pelo destino a amar intensamente e viver tal sentimento à flor da pele e da alma; já sofri e esbravejei aos quatro cantos de meus quartos e folhas de papel por uma paixão não correspondida. Martirizei sentimentos, esqueci datas importantes, dormir com vontade, acordei arrependido, acordei de ressaca. Já fugi de casa, nem lembro como cheguei; já zerei um trabalho (mais de uma vez), já gabaritei uma avaliação (nem tantas assim). Já esqueci o nome de uma música, já puxei uma do “fundo do baú”; rasguei a garganta em um grito de gol e perdi a voz cantando no chuveiro. Já perdi a esperança no ser humano, como já descobri a verdade dentro de mim. Tudo isso em meus quase vinte anos de existência.


Já senti amor, senti raiva, senti angustias, senti a ironia e o sarcasmo batendo a minha porta apresentando-se como destino. Já senti uma cerveja descendo quadrada, já senti um embrulho no estomago; já vivi um dia como se fosse o último, assim como já desejei que o fosse. Fui um bebê chorão, uma criança insuportável e hiper-ativa; fui um adolescente rebelde, um jovem atormentado e, apesar dos pesares, fui, no meu interior, uma eterna pessoa feliz. E, como se tudo fosse obra de um acaso nada casual, aprendi o valor de um sorriso e de um olhar quando sinceros, de um coração quando determinado, de uma porta quando aberta – uma oportunidade entregue; aprendi que nada sou além do que escrevo e que nada escrevo além do que sou.


E, como Alexandre, o Grande: já almejei intensamente a conquista de todo um mundo; como Dante Alighieri: vivi a maior viagem da minha vida em um sonho louco. Como Don Quixote: fiz de meus objetivos, a razão de minha existência; e, como Sócrates, ao final de sua jornada: vi que muito pouco eu sei.


Destarte, fiz muito mais que uma crônica pode relatar, literal ou metaforicamente. Mas, como o maior dos bens a mim entregues, esse segue como o maior de meus agradecimentos. Que agora o tempo traga consigo a importância de um novo dia e a inutilidade de um dia perdido; que siga trazendo amigos e pessoas das mais incríveis, assim como tem o feito continuamente. E que, avaliando as possibilidades e competências, prossiga me ensinando como amar e ser amado por cada um dos amanheceres que entrarem pela janela.


Vinte já foram! E que venham os quarenta!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Poesia - Permita-me essa ultima chance


Senhor do céu, meu grande superior;
Permita-me seguir em terras inimigas;
Eu ainda tenho muito a escrever;
Ainda tenho muito a mostrar;
Aos meus inimigos.

Permita-me fazer parte do ultimo sacrifício;
Eu quero entender o que significa dar a vida por alguém;
Eu ainda tenho muito a aprender;
Coisas que em minha terra não terei respostas.

Permita-me uma ultima chance;
Para se tornar festa para meus inimigos;
Permita que eu chore, pela ultima vez;
Permita que, pela ultima vez;
Derramem meu sangue.

Eu, apenas, ainda desejo seguir pelo caminho;
Que a mim é proibido;
Quero, mais uma vez, ser pego com uma rosa;
A filha mais jovem do mestre dos meus inimigos.

Permita que eu veja, mais uma vez, a flecha em meu peito;
Permita-me sentir a ira de meus amigos;
Ainda quero blefar com minhas tolas palavras;
Quero, mais uma vez, ser odiado.

Desejo apenas concretizar o sonho de morrer;
Como meu ser realmente quer;
Então, me permita ter alucinações com o sofrimento;
Permita-me essa ultima chance;
Permita-me morrer pela ultima vez.

Poesia - A lápide de um anjo

Pai, hoje a sociedade perdeu seu filho,
Pré-direcionada ao saber,
Eu nada consegui entender.
O medo e a dor tomaram conta desse feto morto,
Sinto muito,
Eu não posso mais lutar contra isso.

Implantado no ventre da mãe de todos os homens
Eu desenvolvi meu sistema nervoso.
Contudo, há muito, eu deixei de receber sustento,
Cada nutriente para manter viva a esperança.

Portanto, gerado em estado catatônico
E nascido semimorto,
Eu fui jogado ao terror
E enterrado com um inotável fio de vida.

Hoje, minha morte prematura
É sinalizada pela estátua de um anjo,
Uma figura perfeita de meu objetivo.

“Aqui jaz uma criança com asas
E coração dilaceradoPortadora de uma alma em preto e branco”.