domingo, 7 de novembro de 2010

01/01/0001


Nasceu o dia, eu nasci. Agora, sou uma criança, um ser vivo; tenho poucos instantes de existência, mas me titulo “alguém”. Ou, infelizmente, não.


Fui tirado de um ambiente confortável e acolhedor onde tinha acesso contínuo a tudo que precisava e que poderia desejar e, logo de largada, sou recebido por um troglodita com uma palma certeira em minhas nádegas sensíveis. Assim, após confirmarem o meu pranto iminente e desesperado, sou roubado da presença de minha genitora; meu único porto seguro conhecido.


Transferido, parei em um ambiente carcerário no qual me algemaram uma das mãos à uma tarja com símbolos desconhecidos transcritos em continuidade e que, creio eu, poderiam até ter algum significado barato. Abusaram de mim com múltiplas mãos biônicas e inteligentes. Sons estrondosos em meus ouvidos, metais gelados em meus pés e mãos, agulhas, luzes fortes,...

Senhor! Eu estava em um universo só meu! Escuro, quente, acolhedor, silencioso. Será que é possível respeitar um pouco o meu espaço e minha individualidade?! Afinal, esse é o meu corpo, camarada!


Enfim, estava cansado, cheguei a minha fatiga natural. Entrei em estado de sono.
Ao retornar ao meu estado de vigília, surpreendentemente, tudo ficou ainda mais confuso. Vomitaram sobre mim datas, nomes e títulos dos mais complexos. Já me deram um nome, um apelido, acharam em mim qualidades e defeitos – os adjetivos dos mais variáveis. Eu sou filho, sou irmão, sou afilhado, eu sou Caio, sou Pablo, sou João. Eu sou Viviane, sou Caroline, sou Amanda. E, da mesma forma, eu tenho um número de contato, um Registro Geral, um CPF, uma data de nascimento, um cadastro de existência.


E essas letras? E esses números? O que eu faço com tudo isso?! Estão horrorizando os primórdios de minha história com uma velhice intelectual mais repugnante que as “papinhas” de banana e pão com leite que me atiram garganta abaixo todos os dias.



Oi! Eu não sou um recém nascido e estes não e tratam de meus reais problemas, mas, por outro lado, este é o mundo em que vivemos. Todos os instantes, somos titulados com rótulos secos, como se nada mais fossemos que um complexo de números, de letras. Por isso, ditei um texto construído sobre uma metáfora pela qual já se fez concreta a todos. Dessa forma, cada um poderá assimilar esse “primeiro dia de vida” da maneira que bem entender, sem a frieza dos rótulos; sem conceitos pré-estabelecidos.

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