
Não entendo exatamente o motivo, creio que seja porque há ciência de que a paz e a tranqüilidade contínua persistirão até o próximo amanhecer. Sim. Provavelmente a razão pela qual a madrugada tanto me encanta seja o breve prazer de desfrutar da solidão sem qualquer receio de estar, realmente, só. Apenas vivendo o mesmo mundo no qual meus entes queridos repousam em seus travesseiros, envoltos em seus cobertores nesse inverno que nunca nos abandona em Caxias do Sul. Mas, enfim, não sei o que seria de cada fragmento de meu meio humano e racional caso não fosse a honra do luar me presenteando com essa horas de autoconhecimento; minha bela madrugada.
Vejamos o mundo:
As ruas vazias; o vento soprando tranqüilo, suavizando sua peregrinação e, acima de tudo, assinatura real desse agente tentador, o nada. O silêncio astuto valorizando o complexo e intacto nada ainda esperando uma tradução coerente aos murros da racionalidade humana.
Mas a madrugada é simples; mecanicamente estável, apesar de todos seus encantos; não há qualquer mistério rondando-a. Ela apenas existe, apesar de muitos soldados do sol se recusar a perceber, mas, ainda assim, eles sabem de sua existência. Todos sabem. Sabem que na madrugada todas as emoções são intensificadas – o afeto e a ira; o desejo e a paixão, como o ódio e o rancor,... Todos vivem entrelaçados em suas particularidades, correndo livres pelas ruas desertas que a madrugada permitir. Mas, é nesse percurso discreto de nosso cotidiano que essas emoções, neuronais ou cardiovasculares, realmente apresentam a sua face e esplendor.
As lágrimas de tristeza proporcionadas por um coração partido e os sorrisos escancarados pela embriagues dos bares da vida; os autoconhecimentos em plena solidão e as orgias brindando o término de uma noite. Cada universo em si, não mais reprimidos pela ditadura racional da exposição solar, mas uma dama nua nas proximidades de onde os olhos alcançam, mesmo fechados. Talvez, então, os sonhos não sejam frutos de nosso descanso mental em posição horizontal sobre colchões de penas de ganso, mas um presente natural que a madrugada entrega aos ares para transpirarmos e, dentro de nossas crenças e habilidades, vivermos intensamente cada pétala da rosa que caí ao chão gelado, sem assassinar a bela ou a fera que vive dentro de cada um de nós.
E é nessa madrugada, minha agente secreta, natural e encantadora, que o mais esperto anjo toma as rédeas; é nesse instante simplório e desvirtuado de nossa existência que a humanidade de nossas mentes acaba por libertar o carrasco de nossas fobias e o salvador de nosso crescimento. O destino.
Tão destemido quanto o arqueiro verde da floresta de Sherwood, o destino solta gargalhadas frente às nossas fronteiras – nossas restrições quanto ao nosso próprio mundo. Ele sabe que é temido e, por isso, em célebres e épicas aventuras e travessuras para impressionar a lua que se preocupa somente em refletir o brilho do sol, ele é a ironia e a perversão em pessoa: encanta-nos com uma tentação das sereias tocando suas harpas abençoadas e cantando aos quatro ventos aos marinheiros da madrugada e, então, ao obter nossa posse e guarda em suas mãos, nos entrega de mãos atadas a mais cruel de nossas faces. Nós mesmos.
Faz com que o espelho revele um olhar perdido e um sorriso abafado. Trás a chuva em preto e branco aos reflexos de nossas almas. E, por isso, o destino carrega a fama simplória e correta, mas injustificável, de vilão. É por mostrar o homem como lobo do próprio homem em uma batalha de olho por olho e dente por dente que é temido e, até, odiado. Mas, ainda assim, ele sorri. Ele sabe que, amanhã, quando o sol tomar conta de um céu não mais estrelado, cada uma de suas vítimas secará suas lágrimas e saberá o caminho certo a seguir. Pois, assim como foram feridas, souberam se levantar, posicionar espada e escuro em proteção ao elmo de suas ideologias e, apesar de não compreenderem, foram doutrinadas aos ensinamentos dos dois maiores mestres pelos palcos de espetáculos que titulamos de vida. Permitiram-se adquirir conhecimento e armas para seguir em frente com a precisão do destino e o mistério de si mesmos.
E esse todo acompanhado pelos ares que ainda seguiam firmes seus rumos, dentre sentimentos intensificados e metáforas perdidas nos cantos perdidos, esperando pelos poetas de barro e soldadinhos de chumbo a resgatá-los. E essa integra, em sua exatidão, jogada no tabuleiro que a madrugada oferece ao jogo.
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