sábado, 13 de novembro de 2010

INQUIETUDE - Prefácio

FOI EM UM ESTRONDO MENTAL caracterizando a peregrinação entre dois mundos que Rafael Bianco despertou. Aos suspiros acelerados, taquicardia, garganta seca e suando frio que se reencontrou. Levantou-se, caminhou lento e distante até a cozinha, servindo-se de um copo de água gelada. Sem sono, dirigiu-se até a sacada de sua cobertura, às margens da sua piscina térmica de hidromassagem e, sob o escoro das palmeiras artificiais simulando um desenho abstrato da luz da lua no seu corpo nu e impecavelmente definido, passou perdido em sua subjetividade por momentos nada precisos. Mais uma vez, sonhara com o momento que mais desejava perder na memória.


De qualquer forma, diferente não poderia ser. Aquela noite completava mais um ciclo de trezentos e sessenta e cinco dias desde que abandonara o trono de vítima das causas para assumir posse como mais um culpado pelas conseqüências. Dessa vez, uma data ainda mais relevante e memorável: completava-se o décimo ciclo.


Um suspiro profundo e um olhar no horizonte de luzes e sons pela madrugada de Caxias do Sul salientavam a ausência de Rafael àquele espaço. Ele avaliava e tentava incorporar-se aos sentidos de sua vítima ao fragmento certeiro de tempo em que a lâmina penetrou em sua pele, atravessando uma camada de gordura e rasgando sua garganta e veias responsáveis pela oxigenação cerebral; ao instante seguinte em que as pernas ficaram bambas fazendo-o cair de joelhos já decorado por uma gravata vermelha crescente sobre sua camisa branca, enquanto a visão encaminhava-se para a escuridão absoluta até que o chão fosse presenteado por um corpo já sem vida e aceitasse o líquido vital percorrendo pelas depressões dos pedregulhos em formas geométricas da calçada.


Todavia, ele não era a vítima. Rafael era o assassino e sua mente, naquele instante, mantinha-se transparente como jamais havia se sentido. A poça de sangue fluindo ampla às pulsações cada vez mais lentas do coração ainda pulsante do homem a sua frente tomava toda a sua atenção. E parou. Ele sentia um calafrio na espinha quase sufocante; onipresente em seu corpo, e a lâmina do crime em suas mãos mantinha-se firme. Enquanto isso, sua mente trabalhava acelerada e absoluta.


Pela periferia de seu olhar, certificava-se de que não havia sequer uma figura viva em sua presença, calculava os passos que deveria traçar a partir daquele instante para não ser incriminado e, por mais que tentasse reprimir tal sentimento, sentia o orgulho correndo em suas veias, sobre o seu sorriso exposto e seus olhos focados ao acompanhar a precisão cirúrgica do corte que fizera no pescoço de Vinícius Enzveiler. Não havia sinal qualquer de repressão ou de hesitação por parte de Rafael ao executar o crime. Era uma decisão absoluta do seu eu. E, por mais errado socialmente que a situação se contava, todo o lamento de Rafael se resumia a não conseguir sentir arrependimento ou remorso algum quanto ao seu último ato.


Naquela noite, ele havia materializado a angustia reprimida por seu ego; a noite de outrora que predestinaria o restante de sua vida ao sigilo. Naquela noite, Rafael havia reconstituído o exato instante que o titulara um assassino.


- Parabéns por mais esse ano de existência sigilosa, minha cara mórbida memória.


E, brindando a água ao luar, bebeu do último gole do copo, liberou mais um suspiro repreendido e, com sua cabeça latejando, tomada por pensamentos, seguiu até seu quarto e deitou-se no travesseiro de penas de ganso, cobriu-se com o lençol de seda italiana e ali martirizou em claro os fantasmas de sua história desde a morte de seus pais até o amanhecer seguinte.

3 comentários:

  1. -Parabéns por mais esse ano de existência sigilosa, minha cara mórbida memória..

    Olha achei este texto muito significativo...ADOREII!!

    Maribel

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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