terça-feira, 26 de abril de 2011

O Paire


Há de seguir. Voar livre; alto, como se nada mais tivesse importância alguma. Porque, se não fosse o peso das asas lavadas pelas pesadas sinfonias que as lágrimas e sorrisos deixaram, talvez Ícaro jamais tivesse caído. O tempo que o procedeu e as deixas que o partilharam o pão e o cálice o entorpeceram; deixaram-no à beira da queda a própria existência, como se tratasse do topo do mundo e dos vales da onda, a face real frente ao espelho.

E assim, as palavras seguem, como notas dramáticas de um coral de sopros. A áurea não corroe mais as paredes do cativeiro que seu lar fronteirava e ele aprendeu, como o galante noviço que sempre foi e será, a justificar as suas utopias em vôos fadigantes. A exaustão dava forma à sua liberdade pois, por mais que as fronteiras de seus mestres o rendessem ao extremo do próprio corpo, ele tinha muito ainda que explorar. E assim o faria.

Correu pelos corredores que emanavam seus pesadelos ao estopim da abstração; mais perigosos e amedrontadores do que jamais o foram e seriam, se não fossem suas barreiras. E, de olhos bem abertos, ele se desfez da bússola que carregava ao colo como um filho e faceou a tormenta. Agora, por mais errônea que estivesse a senda que trilhava, a macieira ainda daria frutos. O tempo seguia correndo seu rumo e ele seguia àlgum lugar.

Não tinha para onde ir, mas, ainda assim, iria. Mesmo que não tivesse nada ou ninguém a esperá-lo; mesmo que fosse surpreendido pelas palmas avassaladoras ou pelo silêncio absoluto. Ainda que perdesse as causas e conseqüências e rendesse o corpo, mas os propósitos e a alma seguiriam intactos; o fio de seda a cativar seu sopro.

Destarte, em convite à vida como primeiro plano e protagonista, o espetáculo há de prosseguir. E, ao apogeu de sua melodia, ele pode pairar seu vôo e deixar o vento aromatizar o desfecho de seus ideais. Trata-se de um homem que voa alto; um anjo que corre livre. Trata-se de um propósito de imediatismo; não há tempo à rendição. A frustração é um risco, a espera é uma inquietude. Trata-se de uma realidade de aqui e agora.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ella



É inicio da noite de um sábado em que os termômetros não anunciam mais que dez graus centigrados na serra, à paisagem de um luar divino e grandioso se entregando aos olhos dos desiguais, mas em plena igualdade, então, e, em decorrência, a chegada da noiva à Igreja São Pelegrino com seu olhar manhoso; predisposto à continência da maquiagem e suas vestes justas e brancas para expor contraste à sua pele morena de movimentos simétricos e contidos, mantendo-se ao trono de sua majestade espiritual. É essa a paisagem, em abstração e/ou materialidade, de minha nova obra que me soa, ingenuamente, como uma suave poesia. Sem uma melodia nítida, tampouco uma musa inspiradora em quadro concreto para espelhar. Apenas a sedução natural e simplória que argumenta metáforas ao transmutar a poluição mundana na maestria de acordes abençoando um coração que, outrora, há não muito, servia-me de angustia e perdição.

Foi de meu agrado e surpresa quando o silêncio trouxe, com bom grado e felicidade, o anexo de pensar-te e, a suprir deste vício, assassinar mais uma das páginas em branco. Decidi dedicar meus primeiros ainda medíocres versos a ti.

Não sei seu paradeiro, mas é dessa incerteza que quero seguir, constante e absoluto, sem hesitar por um instante, sequer, à tua procura. Não me intimida, sobre ameaça alguma do destino, que as trilhas sejam-me árduas; espero que, realmente, assim o seja. Pois, quando compartilhar do foco de meu olhar à imensidão de teu sorriso – este já, então, indispensável, quero que o luar seja, igualmente, tão esplendido e onipresente quando o de hoje. Ele será, assim, a testemunha mais sincera a compartilhar dos laços que entregaremos, ao toque da união do que há de melhor em nós, para a arte dos escribas ser esculpida às novas muitas páginas que o tempo nos presenteará.

Viverei, agora, da poesia. Pois, afinal, tudo que, na vida, eu quero, é um balanço no parque e uma obra de arte; um livro e um café. Nada mais, então, tão belo, sincero e pulsante que o sorriso de uma musa inspiradora, aquela que, ainda, não materializei à minha entrega.

Gozo do gosto amargo gole do café, do vento no balanço, das lágrimas frente à pintura, da lua tão esplêndida e grandiosa tomando o céu – junto ao véu da noiva, e, à última página do livro, escrevo-te uma carta de amor que, talvez, jamais terei coragem de entregar. Mas que, ainda assim, salientarei a todas as estrelas, por todas minhas noites em claro, que foi a ti que escrevi.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ao Teatro De Minha Existência


Tornei ao teatro das muitas máscaras e poucas faces. Segui, desprezando as obstruções do advento, até o palco do qual coabitei os avessos e transversos de minha existência, cuja mesma fui coadjuvante – quase subalterno – e nunca protagonista. Ao mesmo que entreguei meu espírito aos atos e meu punho aos legados, mas, por ironia, ou coincidência, ou destino, não havia mais ninguém para presenciar.

As poltronas, mesmas que, um dia, foram trono para a salva avassaladora de palmas, cediam o tecido aos vermes e já cheiravam a mofo. Tais quais as cortinas que, ao foco dos spots, deixavam transparecer os sorrisos e lágrimas – gargalhadas e prantos – de um homem, não de um personagem; elas estavam encharcadas pelo galope de um turbilhão de injurias sem precedentes; sem pretensões. Mas, ainda assim, não questionei meus passos e subi ao palco, mais uma vez, para interpretar a mim mesmo, ainda que não houvesse sequer um companheiro presente. O silêncio seria minha testemunha e tomaria frente nos aplausos ensurdecedores. Daí que, então, um afável assombro:

Todos; cada um deles. Intactos.

Aos poucos, foram saindo da segurança solitária e abafada das coxias e se apresentando; alguns, tímidos com minha presença inusitada e, outros, incrédulos com meu regresso turvo. Pois que, então, dentre eles, o personagem de um coração partido que subsisti às longas primaveras pretéritas.

Em passos cansados e sob o desdouro de um olhar, ele procedeu à minha presença. Tocou-me o ombro, apertando-o sem muita força, mas abalando a melodia daquela serenata com um sorriso. E eu o vi, pela primeira de tantas outras vezes, ébrio da formosura genuína, ao casco de um velho bem trabalhado pelo ponteiro do relógio e arquitetado sobre incorpóreos alicerces de sabedoria. E eu devolvi o sorriso ao qual me presenteou.

Ele sentou-se ao meu lado ao dito:

- É bom revê-lo.

Deixei a ausência de qualquer ruído tomar forma de meu revide. Eu estava, tão pleno e sincero, grato por sorver, novamente, da comparência daquele. Destarte, foi do mesmo sossego que a ternura se fez alma; o trono que se erguia nas obras de arte daquele palco sem atores e sem personagens. E, destes, avistei a magnificência das paredes já corroias e das taboas apodrecidas do palco, ao exato mesmo instante que deslumbrei o meu personagem em um contemplo acanhado e ingênuo do outro lado do espelho; vetusto como só nós conseguiríamos protagonizar.

- Tudo continua lindo, não é?

E ele sorriu, devolvendo-me aquele que o presenteava.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sem precedentes; Sem pretensões


Deixe-me passar, cidadão.
Meu objetivo não perpassa ruína alguma
Eu não sou nenhum poeta de amores platônicos
Nem um hipócrita falando mal do meu país.

Não quero derrubar nenhuma força política
Tampouco questionar dogmas e credos.
Não quero mais do que entrar
E entorpecer-me de minha própria existência;
Deixar a incoerência falar por mim.

Não sou um ativista revolucionário
Nem um visionário com um livro e uma cruz;
Não acredito que o universo tenha uma lei concreta
Nem que todos irão pagar pelos erros que cometeram.

Não tenho medo dos mortos
Temo quem é vivo e, ainda,insano
E não vou mascarar minha ignorância com discursos emotivos
Quero apenas adentrar afesta e dançar conforme a dança.

Quem eu sou?

Sou o comodismo em si
E a realidade de uma versão patética de sonho.

Sou aquele que não ama
Que não crê
E que não chora.

Eu sou prole,
Um dia, quem sabe, progenitor.
De um sistema falido, mas que eu,
Assim como você e como todos,
Não tem interesse algum em mudar.

Afinal, por mais alto que voem minhas palavras,
Eu ainda não saí do sofá.

Portanto, cidadão,
Deixe-me passar.
Quero somente um café,
Uma conversa despretensiosa
E um par de pernas abertas ao final dessa madrugada.

Tenha uma boa noite.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tempo


O tempo beberá de minha juventude, tomando-a de mim. É oriundo de nossa entidade; não há forma de repelir.

Por incontáveis amanheceres, me perderei – permitindo-me perder – no travessão entre as palavras e a melodia. O mundo será só meu, apesar de o mesmo resultar em um possível egoísta; um incapaz de compartilhar as poesias que escreverei quando as batidas sólidas já não couberem mais em mim. Mas o farei. Sem arrependimento algum de tê-lo feito. Acredito que, mesmo que for guiado a assassinar muitas das notas e acordes, versos e estrofes, ainda assim me servirá para compreender a abstração dos relógios derretidos e a harmonia entre o preto e branco e o multicolor.

Certamente, eu amarei demais, mesmo que o amor verdadeiro jamais faça bater o coração; que jamais bata à porta. Não é um desanimo que, propriamente, me alague a face. Aprendi que o amor sempre foi o agente condutor entre o instinto e a razão – Dionísio e Apollo; sempre guiou a humanidade à evolução, tanto quanto à loucura. Mas é visível que não há, a meu ver, qualquer discordância entre ambos. Havendo, portanto, uma ação direta, ou não, do sentimento alfa em minha vida, serei grato por coexistir sobre a mesma civilização habitacional dessa áurea tão hábil à sedução.

Então, quando o tempo me sorver dos últimos fluidos orgânicos e gozar de minha impotência, serei desolado – apesar de grato – às paginas que, um dia, estavam em branco, deixando os pensamentos do poeta e do leitor voarem livres por seu universo subjetivo; seus maiores sonhos refogados, impossibilitando fronteiras. E, todavia, dotado de uma mente onde, outrora, palavras manavam e estoiravam e, agora, como pleno êxito, alegam páginas amareladas e abstratas à fachada, serei lúcido ao embriagar-me dessa insanidade.

Em tempo, calei meus pensamentos todas as vezes que a inquietude me direcionou a uma certeza. Afinal, este seria o maior desacato às minhas proles rabiscadas e reescritas. A certeza é uma dádiva oriunda e cabível apenas à escória; aos leitos à arte. E sempre fora um equívoco sem precedentes titular a grandiosidade da certeza frente ao questionamento. Por essa ignorância, e apesar disso, vi o mundo levar ao comando tolos dotados de certezas e excluir gênios vagando em desassossegos por seus questionamentos. Um desacerto sem tamanho.

Enfim, por destarte natural, serei vítima das causas e culpado pelas consequências. Jamais terei o tempo que desejo para viver dos meus amigos; tanto quanto, um dia, não terei mais amigos para usufruir o meu tempo. E serei a ternura e o desprazer de meus mais queridos sonhos; educando meus instintos à maior proximidade necessária da perfeição que, ao ultimato dos dias, eu puder usufruir. E terei ganho meu tempo se conseguir relevar os muitos universos que me cruzam estrada e se, acima de tudo, afinal de contas, conseguir, por uma batalha épica ou pura coincidência, ser o protagonista de meus romances.