segunda-feira, 14 de março de 2011

Tempo


O tempo beberá de minha juventude, tomando-a de mim. É oriundo de nossa entidade; não há forma de repelir.

Por incontáveis amanheceres, me perderei – permitindo-me perder – no travessão entre as palavras e a melodia. O mundo será só meu, apesar de o mesmo resultar em um possível egoísta; um incapaz de compartilhar as poesias que escreverei quando as batidas sólidas já não couberem mais em mim. Mas o farei. Sem arrependimento algum de tê-lo feito. Acredito que, mesmo que for guiado a assassinar muitas das notas e acordes, versos e estrofes, ainda assim me servirá para compreender a abstração dos relógios derretidos e a harmonia entre o preto e branco e o multicolor.

Certamente, eu amarei demais, mesmo que o amor verdadeiro jamais faça bater o coração; que jamais bata à porta. Não é um desanimo que, propriamente, me alague a face. Aprendi que o amor sempre foi o agente condutor entre o instinto e a razão – Dionísio e Apollo; sempre guiou a humanidade à evolução, tanto quanto à loucura. Mas é visível que não há, a meu ver, qualquer discordância entre ambos. Havendo, portanto, uma ação direta, ou não, do sentimento alfa em minha vida, serei grato por coexistir sobre a mesma civilização habitacional dessa áurea tão hábil à sedução.

Então, quando o tempo me sorver dos últimos fluidos orgânicos e gozar de minha impotência, serei desolado – apesar de grato – às paginas que, um dia, estavam em branco, deixando os pensamentos do poeta e do leitor voarem livres por seu universo subjetivo; seus maiores sonhos refogados, impossibilitando fronteiras. E, todavia, dotado de uma mente onde, outrora, palavras manavam e estoiravam e, agora, como pleno êxito, alegam páginas amareladas e abstratas à fachada, serei lúcido ao embriagar-me dessa insanidade.

Em tempo, calei meus pensamentos todas as vezes que a inquietude me direcionou a uma certeza. Afinal, este seria o maior desacato às minhas proles rabiscadas e reescritas. A certeza é uma dádiva oriunda e cabível apenas à escória; aos leitos à arte. E sempre fora um equívoco sem precedentes titular a grandiosidade da certeza frente ao questionamento. Por essa ignorância, e apesar disso, vi o mundo levar ao comando tolos dotados de certezas e excluir gênios vagando em desassossegos por seus questionamentos. Um desacerto sem tamanho.

Enfim, por destarte natural, serei vítima das causas e culpado pelas consequências. Jamais terei o tempo que desejo para viver dos meus amigos; tanto quanto, um dia, não terei mais amigos para usufruir o meu tempo. E serei a ternura e o desprazer de meus mais queridos sonhos; educando meus instintos à maior proximidade necessária da perfeição que, ao ultimato dos dias, eu puder usufruir. E terei ganho meu tempo se conseguir relevar os muitos universos que me cruzam estrada e se, acima de tudo, afinal de contas, conseguir, por uma batalha épica ou pura coincidência, ser o protagonista de meus romances.

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