quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O Vagabundo

Acordei – há pouco – entre um bico, na costela, e duas cusparadas, na cara. Comum recepção, nos morros da favela; nesta manhã, já raiada. Se bem me recordo, a lua me beijava, enquanto eu adormecia. E, para o ensaio de minha cegueira, dei um tapa na carreira, como um irônico grito de “bom dia”. É um tanto lacônico; e parece bucólico, mas é a vida que eu conhecia.
Não me julgue, cidadão! Eu acordei há pouco, e ainda não recuperei a razão. Eu ainda estou rouco; e me sinto meio louco, tamanha é a pressão. Estou sobre o efeito de entorpecentes, e destes problemas decorrentes, desta ingrata vida de cão.
Tenho vinte anos. Quase oito de tráfico e madrugada. Pouco mais de cinco entre muito vício e pouca morada. Conheci criminosos internacionais; ditadores da droga e até personalidades estatais. Já dormi na estrada; em rodovias federais; levei chumbo da brigada, e acordei com a cara surrada por muitos que se titulavam liberais. E também ouço, todos os dias, que sou um vagabundo – e que, do mundo, eu só mereço a morte. Pouco sabem, estas mentes vazias, que nestas madrugadas frias, eu só pude contar com a sorte.
Eu não estudei em colégio bacana. Na verdade, nunca tive grana, pra investir em educação. Mas agradecia – com tudo que podia – quando, na mesa, tinha arroz e feijão. E, até hoje, nenhum irmão me repudia; e nem julga rebeldia, quando roubei um pedaço de pão. Fiz como Valjean, naquelas páginas de maestria; em seus literários tempos de revolução. Por isso, não me julgue, cidadão! Pois, desta vida tardia, eu apenas segui a razão. É a vida que eu conhecia. Esta maldita vida de cão.
E eu digo – apesar de envergonhado – que eu só segui a inércia. Mas que vida é essa, se eu só posso agüentar calado? Se eu sou um amargurado, que deixou a vida me ensinar; e me obrigou a aturar, este perfil marginalizado? Quem sou eu, que de todas as verdades – e das poucas oportunidades – jogou tudo para o lado?
Em suma; em todas essas cicatrizes que a vida consuma, eu também não sei se vergonha é o termo correto. Vendo que o mundo está repleto de tantos outros quanto eu. Que, nestes colossos de concreto, nasceram – e só conheceram – os trajetos distorcidos que a vida deu. E que nunca receberam – ao certo – algo além deste deserto; este olhar, um tanto breu.
Por isso cheiro desta inodora flagrância. Por isso, vendo esta substância. Pois sou um viciado e um traficante. E este é o retrato de um filho derrotado e um adolescente errante. Por isso, sequer dou importância, pois queria fazia poesia. Abstrair, das palavras, estas maravilhas que o dia escama. Quem sabe, até fugir da membrana, e escapar da agonia. Quem sabe, poderia ser pintor. Fazer arte bela e fria, com louvor, muito amor e até posar para uma fotografia. Pois poderia ser cantor.
Mas minha vida foi vazia e eu não tive escolha. Tornar-me um traficante era a única chance de fugir da bolha. Este é o destino que, a minha frente, cai. É a realidade que, à mente, apresentou-me meu pai. E é o caminho que eu pregresso, sem chance para interpretação. É o trabalho que exerço, deste ingrato dia de cão.
Pois está a é a única vida que eu conheço. Então, não me julgue, cidadão.

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